Ballet na hora certa

Eu já contei que fui ao ortopedista tirar os laudos para a ponta, mas não contei como foi.

Eu cheguei já contando que eu sinto muita dor no joelho, blábláblá… e aí mostrei o laudo pra ele. Ele nem leu o primeiro direito e falou “tem que fazer raio-x”. Eu perguntei “e o resto? não dá pra ver agora?”. Ele respondeu “mas você quer fazer incompleto? traz lá o raio-x e faz tudo de uma vez”. A minha diretora disse que não precisava de raio-x, não, que só examinando à olho mesmo dava.

Depois, ele começou um discurso sobre o ballet que eu faço. “ah, é uma atividade que exige muito… você deveria ter começado mais cedo, com 6, 7 anos, porque você estaria no crescimento ainda, e seus músculos e ossos se acostumariam mais rápido. Se você está sentindo dores, eu te aconselho a parar. Tem tanta coisa pra você fazer, vai ser atriz, vai tocar um instrumento.. não tem só ballet no mundo, né?”

Não, doutor. Para mim, só existe ballet. Mesmo que eu não queira ser profissional, e que goste de outras artes – são paixões diferentes.

Eu fiquei com muita raiva, irada mesmo! Fiquei com muita vontade de falar com ele sobre Misty Copeland, que começou a fazer ballet aos 13 anos e é solista do ABT. De falar sobre todos os bailarinos adultos que eu conheço, que fazem aula comigo. São todos lindos E adultos.

Qual é o problema de começar um pouquinho depois? Eu acho até melhor, sabe? Um adulto se conhece muito mais, faz porque gosta. Além de ser um super-herói que cuida da casa, dos filhos, de emprego e faculdade, e arranja tempo para se informar e praticar.

Quem aguentaria esse pique todo se não amasse de verdade o ballet? Quem o começa por atividade não fica, eu tive a chance de ver. É muita dor e abdicação. E os resultados demoram um pouquinho.

Eu conversei com minha amigona Sacha, e com a minha diretora (ela é fisiologista, profissional de educação física e professora de ballet.) Contei como o médico agiu, super grosso, mal educado, e o que eu acho sobre o assunto, e perguntei o que elas acham.

A Sachete faz ballet desde o ano passado, e ela disse: “Eu só acho que não existe idade (cronológica) para viver paixões, amores, mesmo que essas não sejam pessoas, e sim passos de dança… a idade tá na cabeça de cada um, a minha é só minha, independente dos meus 26 anos cronológicos. E aí, vai deixar a opinião alheia impedir seus sonhos porque essas opiniões tem cabeças idosas e esclerosadas?”

E dificuldades corporais. Sinceramente, não acho que elas existam. Acho que existe é um trava que cada um se coloca (eu me coloquei uma na borboletinha que Deus me livre!), sabe? Talvez medo de se machucar.

Se os exercícios forem feitos de maneira correta e com profissionais, não sei por que os adultos se machucariam. Sachete pensa tipo eu: ela acha que “cada corpo tem seu o seu limite (exceto o da Zakharova), independente da idade ou treinamento que tem e cada qual e cada equipe em que esse qual tá inserido deve respeitar o limite desse corpo, afinal, não se trata só de ‘corpo massa’, se trata de um membro que tem sua devida importância particular e inserido num grupo, como tal seus limites precisam ser respeitados pelo próprio dono e pelos que o rodeiam.”

A diretora, que ficou revoltada e postou no Facebook “… gostaria de deixar claro que estudo não é sinônimo de educação” (amei!), contou que “não era a 1a vez que uma aluna reclamava do tratamento de um médico – ou melhor, destratamento!

“Fico revoltada!! Realmente arrepio ao saber que um profissional não tem conhecimento do assunto e ao invés de dizer: ‘não conheço nada de ballet…’, ele diz: ‘desista, você não serve pra isso’ e tenta resolver da forma mais simples e fácil para quem desconhece.

“Minha decisão por encaminhar minhas alunas a um ortopedista antes de fazer a 1ª aula de ponta foi durante a minha pós-graduação de fisiologia. Nenhuma professora de ballet me pediu, quando iniciei o uso das pontas, para ir ao ortopedista. Porém senti a necessidade de ter um laudo dos MMII (membros inferiores), pois com ele em mãos posso planejar aulas de preparação física, propriocepção, força e flexibilidade, para fazer com a estrutura da aluna possa melhorar e se adaptar da melhor forma à ponta, sendo uma bailarina profissional, ou não, mas da forma mais segura possível. É muito importante pra mim ter uma avaliação das estruturas físicas do aluno para fazer um planejamento eficaz de minhas aulas.

“Infelizmente temos esse tipo de profissional em todos os ramos de trabalho; são pessoas desinformadas e, pior, demonstram que não honram o juramento da formatura, não amam a profissão e destroem o sonho dos outros.

“Eu reafirmo que não é requisito e muito menos consenso de muitos professores de ballet encaminharem suas alunas para o ortopedista para uma avaliação antes das pontas, mas eu sei que priorizo uma aula bem planejada e tanto as alunas, quanto as mães, sabem que estou primando pelo trabalho e pela segurança desta aluna. Já quase desisti de pedir laudo médico porque o 1° caso de uma aluna que voltou de um ortopedista, quando a encaminhei para que ela iniciasse nas pontas, eu tive que ouvir da minha aluna de 35 anos que o médico perguntou se ela não tinha nada pra fazer em casa ao invés de ir para aulas de Ballet… ou seja: se ela não tinha uma trouxa de roupa pra lavar!

“Existem professores loucos que colocam a sapatilha de ponta em crianças com 4, 5 anos, meu Deus! Talvez se fosse lei que tivesse que passar por um ortopedista (UM ORTOPEDISTA BOM!!!), ele impediria isso!

“Se esse médico da Cyndi (melhor, esse ex-médico da Cyndi) visse este vídeo, ele falaria para a bailarina sem braço que ela deveria desistir, e para o bailarino sem uma perna e com muletas, ‘você vai se machucar, você não tem uma perna, você não pode, você é ADULTO e, pior, DEFICIENTE, desista de tudo, fique em casa e não faça nada do que você goste!’

“Vi crianças de 2 anos iniciando no ballet, e vi adultos de 60, 70 iniciando no ballet. E sabe qual a diferença? O amor à dança! Quem ama, e se identifica, não encontra barreiras para ficar 30 minutos na barra, no centro, no palco, com taquicardia de emoção!, com bolhas nos pés, mas com um sorriso no rosto que vale todo o esforço e ainda sobra energia pra morrer de rir depois da apresentação e pensar ‘na próxima apresentação tenho que ensaiar mais e fazer mais aulas, porque quero me superar.’

“Obrigada, Cyndi, pela oportunidade de desabafar depois de mais de 10 anos, o 1° caso de indignação”.

Para concluir: então, seu dotô, por favor, respeite minha escolha, não ria dela. Se informe um pouquinho antes de criticar alguma coisa.

°°°

Hehe! A diretora falou de mim na entrevista, que fofo!

“Acho que ela tem muita coisa a agradecer ao ballet, aos amigos do ballet, porque eu vi essa menina crescer na dança. Ela se superou, mas tem muito a superar ainda, temos limites físicos e mentais… e ela sabe disso. Sei que o ballet para ela é fundamental para o seu equilíbrio, para a sua vida.

“Cyndi não aceita qualquer resposta… Ela chega a ser chata às vezes, mas é porque ela testa o conhecimento da pessoa no assunto: “Será que essa pessoa tem o conhecimento necessário para dar uma direção na minha vida?” e ela está certa, ela é inteligente, hoje em dia não podemos confiar em todo mundo… o problema é que ela encontrou alguém que dedicou 30 anos de sua vida ao Ballet! Acho que conquistei a sua confiança e adoro ter todos os dias as perguntas dela, porque me instiga a lembrar da parte teórica. Só a prática não basta para Cyndi”.

Conquistou sim. Pódicrer.

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6 comentários em “Ballet na hora certa

  1. Conheço várias histórias de bailarinas que não toleram ortopedistas. Mas como hoje estou em um dia Poliana, vou contar uma história feliz. Em um outro estúdio onde eu fazia aula, uma bailarina se machucou ao fazer o pas de chat. Ficou de molho um mês, teve de enfaixar o pé… Mas nós íamos dançar no final do ano. O ortopedista dela disse: “Eu não deveria te liberar para dançar. Mas ballet é tão lindo, não? Gosto muito de ballet. Façamos assim: eu te libero, mas você só não poderá saltar.” E ela dançou. Sem saltar.

    Sobre o médico que te atendeu, bem… Não preciso comentar.

    Beijos.

  2. Que lindo!
    O médico que a Sacha foi também foi muito gente boa, pediu até pra ela fazer alguns passos, hihi… Eu que dou sorte mesmo!

    Beijocas

  3. esse médico conseguiu que cada bailarina que lesse isso sentisse indignação… se ele tivesse sido pelo menos um pouco educado e tivesse dado uma indireta…

  4. Gente, que ortopedista horrível! Tanto o que você foi quanto o da moça de 35 anos. Não suporto esse tipo de gente. Mas que bom que ele não apagou a sua luzinha. Pessoas assim podem destruir sonhos se a pessoa não estiver preparada pra esse tipo de preconceito tosco e pra lidar com esses profissionais de merda que existem em todas as áreas. Me revoltei também, rs.
    Beijinhos.

    Ah, tô começando a passear por aqui agora, adorei o seu blog!

  5. Ei, Camila! 😀

    Não apagou minha luzinha, não (que fofo isso!)! Azar o dele que eu seguia a Cássia, e pesquisava sobre ballet. Eu sabia que ele estava errado.

    Imagina se ele diz para quem não tem esse conhecimento, tipo um adulto que ainda nem começou?
    Ia fazer um estrago!

    Ah, que bom que você gostou, Camila!

    Beijocas!

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