Perfeição não existe

Quando eu fiz o post dos meus atrasos, falei que ainda tinha assuntos pendentes. Pois bem: era sobre meu exame do grade 4, da RAD, e outro ainda (paciência, fica pro próximo – ou não – post).

Vai acabar que vou falar de duas coisas, do exame e do que me incomoda um pouco, que é minha paranoia de “perfeição” (por Deus, não perfeição de ter técnica perfeita, alongamento lindo, etc etc..)

Mas vamos: no dia de pegar o resultado (perdão: o conceito – fail, pass, merit ou distinction) do exame que a gente fez, teve uma pequena gala, e lá fui eu dançar a coisinha do grade 4.  Só que eu também ia ficar no som. Foi estranho, o coiso do som tava perto do palco, só que na plateia, e eu lá, de tutu! hahaha. Tá pois: acabou o evento, foi entregue um certificado simbólico, e depois, quem quisesse, era pra procurar a diretora e ver seu conceito e nota final.

Eu não vi. Tava correndo pra me trocar, pra não perder o ônibus, e lá tava um tumulto. Mas minha mãe viu.

OK. Ela me contou no dia seguinte: MERIT!

Fiquei pra morrer, exageros a parte. Do tipo NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! COMO ASSIM? EU ME DEDIQUEI PRA CARAMBA! TODO MUNDO APOSTAVA QUE EU TIRARIA DISTINCTION! FULANA TIROU  DISTINCTION! POR QUE EU NÃO? QUE INJUSTIÇAAAAAAA!

(uma pausa: não coloquei lá na frente, mas fail é reprovado, pass é passou normal, merit é com mérito e distinction é com distinção. são níveis divididos por notas, que eu não sei agora quais são)

Fiquei possessa, sério. Chorei, e olha que eu não chorava por nada (muito menos ballet) há um tempão. Eu fiquei muito, mas muito, frustrada. Senti que decepcionava todo mundo que acreditava em mim, meus amigos, meus professores, e a mim mesma. Eu me dediquei muito, de verdade. E tanta gente tirou distinction!

Mesmo sendo merit uma nota muito boa. Eu sempre fui muito perfeccionista. Graças a Deus, não do tipo que se descabela porque tirou 8, sei lá. Mas, no ballet, não foi assim. Eu achei minha nota a coisa mais ridícula do mundo.

Só que eu ME ESFORCEI PRA CARAMBA, POXA! Eu realmente achei que merecia mais.

Acontece, minha gente, que eu não tinha motivo nenhum pra ficar triste. Na verdade, eu deveria ficar muito contente porque: eu me lesionei, lembram?, e fiquei um ano todinho parada; depois, voltei e fiz dois meses de aula antes do exame. Dois meses! De jeito nenhum eu conseguiria meu condicionamento físico de volta, meu en dehors mais-ou-menosinho, meu tantinho de força.

Mas eu não enxerguei isso. Foi preciso muita conversa com amigos pra perceber e me tocar: tenho de parar com isso!

Essa mania de “perfeição” é prejudicial. A minha auto-estima e confiança foram lá pro brejo. Me senti horrível. Pensamentos do tipo “sou sempre mediana, nunca boa o suficiente”. E, ó: já tenho coisas demais a pensar, não preciso me denegrir assim não. Ainda mais numa coisa que me é tão prazerosa.

Esse negócio de “perfeição” (sempre entre aspas) no ballet é um negócio muito chato. Nunca tá bom, nunca tá bonito, nunca tá o bastante… e esse limite sempre aumenta. E é complicado, que é isso que nos move. Ou não? Se eu consegui uma pirueta limpa, agora quero duas. Se meu arabesque chega a noventa graus, quero a cento e vinte. Se eu fiz um entrechat simples, quero um com mais batidas. Sempre e sempre mais. E nunca tá bom.

Porém, para mim, que não quero ser profissional nem bulhufas de nada, não é nem um pouco necessária essa mutilação à confiança. Posso querer fazer mais piruetas? Posso, ué (na verdade, eu quero mesmo). Mas preciso ser exigente assim comigo? Não, não e não!

Não sei se me faço entender, mas gente: eu tirei 71 (ou 73? não lembro). Fiquei a poucos pontos do distinction que tanto queria, e olha a algazarra que eu fiz! Desnecessário.

Essa visão de mim foi mudando aos poucos, junto com a digestão da minha nota.

 

Outra coisa: uma amiga filmou a minha dancinha. ount. A primeira vez que vi, tive vontade de interditar o youtube e tacar fogo. Achei feio, achei rude, ruim demais! Hoje em dia, até simpatizo. E acho meu reverencé muito bonitinho! Eu poderia falar aqui que não dancei bem porque o chão tava escorregando, e eu não tinha breu; que meu corpo tava geladíssimo do ar ligado; que eu tava nervosa porque minha mãe, minha amiga e mais gente conhecida estavam lá; que eu ensaiei umas três vezes. Mas, sabe, cansa justificar uma coisa que não tem que justificar. Dancei e ponto.

Anúncios

8 comentários em “Perfeição não existe

  1. Quem está na plateia não vê resultado de exame. Sério. Isso não quer dizer absolutamente nada para quem te assiste, e são essas pessoas que fazem diferença. Juro que entendo a sua frustração, mas é só uma “nota”. Com o tempo você perceberá que isso não quer dizer nada. (Não quis fazer a “sou mais velha, me ouça”, mas dessa vez não resisti, hehehe.)

    Grande beijo (agora vou lá assistir a você dançando).

  2. Oh, Cyndi! Me vi em você agora. Na minha antiga escola a gente tinha boletim e eu me importava muito com todas as notas, porque achava que aquilo me avaliava como bailarina. Com o tempo percebi que, como a Cássia disse, aquilo não queria dizer nada. Aí eu passei a não ligar mais, e só olhava as anotações que a professora escrevia sobre coisas pra eu melhorar: “procure esticar os pés nas baterias”, “cruze mais o arabesque”, etc. E as notas ficavam lá, secas, na verdade, pois no que elas me ajudariam? É só uma nota que não mede o tamanho da dedicação e amor que você coloca em dançar.

    E linda você! Não percebi seu nervosismo, você pareceu estar feliz dançando. E mais uma coisa: Seus braços são lindos! Leves e expressivos. É a primeira coisa que eu olho em uma bailarina. 🙂

    Beijinhos!

  3. Oi! Não vou te falar pra não levar notas a sério, pra não se frustrar, pra não ser tão exigente consigo mesma nem nada disso, porque só nós mesmos sabemos como somos e como nos cobramos. Eu quebrei um osso do pé ( 5° metatarso) em Dezembro, faltando uma semana para me apresentar, depois de ter ensaiado 4 meses! Eu passei por meses de imobilização, recuperação, fisioterapias e etc e só agora eu voltei pras pontas… Fui escalada para dançar em um festival na semana que vem. Estou pronta? Não. Me sinto segura? Não. Acho que estou uma completa “bosta”? Sim. Acho que vou estragar a coreografia do grupo? Sim. E não existe ninguém que diga o que for , que me convença do contrário.
    Minha ensaiadora, minha professora, minhas amigas, todas dizem que eu me cobro demais, que eu estou bem, que eu não vou estragar nada, que a intenção é me fazer voltar a dançar, que eu não devo me cobrar, que eu sou muito corajosa e forte por já estar conseguindo dançar e que no meu lugar, elas ainda nem teriam voltado pra meia-ponta. Mas, eu já passei da fase “freaking out” , já passei da fase da culpa e agora estou na fase da aceitação: “É o que tem!”, afinal, se eu quiser voltar a dançar, vai ser assim, vou ter que aceitar que não estou 100% e batalhar pra voltar.
    Então entendo 101% do seu sentimento em relação ao exame e vi que você depois das fases de frustração, raiva e culpa, também chegou na fase de aceitação.
    Ainda sim, parabéns pelo seu resultado, que mesmo não sendo o que você esperava.
    O vídeo esta uma graça, e se fosse pra dar uma dica, eu pensaria um pouquinho mais em finalizar as posições , tipo 5°. Mas esta super gracioso, parabéns! =)
    Bjos!!

    Thais

  4. Cyndi, eu não sou capaz de por em palavras o quanto eu me identifiquei com o seu post. Depois que eu fiquei mais velha (e mudei de turma, mas isso é história pra uma outra oportunidade), eu senti que aprimorei bastante minha técnica no ballet e principalmente no jazz. Só que com esse aprimoramento de técnica, aumentou também a minha cobrança: depois do que eu antes consideraria uma boa aula, ou um bom espetáculo, eu agora era capaz de chorar horas (tudo bem, horas não, mas você entende o que eu quero dizer) porque não fiz isso ou aquilo direito “e ficou horrível e todo mundo percebeu”, enfim, o nosso discurso de sempre. Até o dia em que uma das minhas amigas me deu um chacoalhão usando somente palavras. Ela disse o seguinte: “Sarah, desde que você era pequena é lindo te ver no palco porque você mostra que ama dançar”.
    Cyndi, assistindo a esse vídeo, foi isso que eu percebi em você. Uma alegria imensurável, uma satisfação enorme, um amor pela dança que não tem explicação – tem que sentir pra entender. Eu sempre acreditei que nossa grande missão como artistas é, mesmo que por alguns momentos, transportar as pessoas que estão nos assistindo a um outro mundo, seja a França medieval, um vilarejo na Cracóvia, o mundo dos contos de fada ou um lago no meio de uma floresta, e fazer essas pessoas esquecerem a realidade que está acontecendo do lado de fora do teatro. Nós conseguimos isso quando transmitimos a nossa emoção pra eles. E como é que uma coisa tão objetiva, tão “seca” quanto um número vai avaliar essa sensação?
    Em tempo; não estou dizendo que você deve deixar de se cobrar e melhorar os pontos que forem necessários. Quer a gente goste ou não, o ballet clássico não é isso. Mas pegue mais leve com você mesma. Se você se concentrar em sentir, os movimentos vêm naturalmente, na hora certa.
    Beijos!

  5. Gente, tem um cisco aqui no olho, peraí.

    Jinnye, nem tem como a performance de um dia nos avaliar a dedicação, a entrega, a técnica, etc, até porque já é um dia que a gente fica naturalmente nervosa, né? e mesmo sabendo toda a matéria, eu erro bobeira mesmo, hehehe. =D muito obrigada pelo elogio! Meus braços são o que mais gosto em mim ^-^

    Thais, sou assim mesmo, heheh! Cobrança e cobrança! Mas eu estou aceitando sim, e tô tentando voltar às aulas todos os dias, mesmo que não dê, pra recuperar o que perdi. É difícil, por causa da facul, mas sigo tentando. Obrigada pela dicaaa! Vou prestar mais atenção, porque eu presto mais na parte superior – vai entender, hehe.

    Sarah! ameei seu comentário, tão sensível! Muito obrigada! Eu quero te ver dançando, agora, mas tenho certeza que vai ser só pra certificar, porque dá pra PERCEBER que você ama dançar mesmo, e que isso flui de você. certeza.

    Beijocas, meninas!
    ps.: o cisco não sai, que chato.

  6. Aiai , notas em dança são um saco !! Nunca fiz o rad, mas fiz faculdade de dança. As notas não são nada justas … ngm vê o quanto vc evoluiu , o quanto vc dedicou (apesar do discurso ser o contrário) no fim o que conta mesmo é se vc tem pernão e é en dehors… Mas vc tá certinha em td que disse , não vale a pena … o que conta é vc se sentindo bem quando dança, pra si, pra quem gosta de vc … Sua expressão é linda !!

  7. Mayara, dançar pra mim é o que tá contando por agora, hehe. Vê, as crianças fazem isso e são tá felizes! a gente perde isso com a idade, e pensa só em técnica, técnica, técnica… deixa isso pra lá, às vezes! hehehe 😀

    e obrigaaaada pelo elogio! 😀

    Beijocas!

Comenta. É grátis! :-D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s