Quando tudo conspira…

No espetáculo desse ano, que foi sobre um filme da Barbie, eu faria uma das personagens principais da parte “teatral”, que não dança (porque eu sou a cara dela, óia). Até aí, ok.

Mas, quando foi decidido que eu dançaria a noiva russa (de O Lago dos Cisnes, sabe? 3º ato), eu já senti uma coisa pegando. Não sei ao certo, pode ser coisa da minha cabeça, mas eu senti um leve racismo por parte de uns. Não acho legal espalhar coisas que não são, mas… sei lá, eu senti.

Uma noiva russa negra assim? Sim, senhor.

A questão é que eu sou uma “intérprete” da história. E isso dá pra ser qualquer um. Não vou prolongar muito, mas é mais ou menos como reclamar de uma Odete negra, porque ela é de um conto alemão. Realmente importa a cor da pele dela, ou a dança e a expressividade, ou seja, contar a história?

E pra não me sentir desconfortável, fiz piada disso, como sempre faço.

Também tem outra coisa: eu não tava conseguindo fazer aulas. Ia numa aqui, outra acolá em outro mês. Aposto que gente já deve ter ficado putinha com isso. Eu até falei que entenderia se me tirassem o solo, mas falaram que se eu conseguisse ir uma vez por semana, eu poderia dançar sim. Ok!

Me esforcei, juro que esforcei, mas nem sempre conseguia ir. Só que foi muito frustrante, porque em nenhuma vez que fui, eu ensaiei. Nenhuminha. Galere, não considero ensaio só passar a dança, o que aconteceu umas duas ou três vezes com gente olhando, inclusive. De resto, ensaiei sozinha no meu cantinho.

Aí a insegurança foi lá para os tetos.

(A Cássinha, muito gentilmente, se ofereceu para me ajudar por vídeo, só que eu não consegui filmar por N motivos. Agradeço aqui de novo a ela, que tanto amo e admiro! ^^)

Mas ok também. Me viro. Sempre me viro, nisso não seria diferente.

No dia da apresentação, meu figurino ainda não tinha chegado. Ante à tanta coisa errada pra mim, o sentimento era que o figurino não ia dar certo também. Bem, pra ser honesta, meio deu. Chegou umas 3 horas antes da apresentação. A cor veio diferente do desenho (mas gente, é LINDOOOO), e o sapato de dança caráter que eu usaria não combinava. E mais: eu ia usar minha tão sonhada meia çalça tonalizada!, só que agora não ia ficar legal. Tive que arrumar às pressas meia calça e sapatilhas rosas. Deu erro também, que a meia calça veio M, com perigo de rasgar no meio da dança, mas, graças a Deus, não rasgou. ufa!

E da outra personagem, ninguém se preocupou com ela. Eu não tinha figurino, não tinha acessórios, não tinha nada. Dancei com uma roupa minha e um óculos de fantasia que arranjei com uma amiga. Me virei, né?!

Tá sentindo aqui comigo? Parece que o mundo tava dizendo “cyndi, sua fofa, você não vai dançar hoje”.

Resolvi tudo, ok também.

O forninho caiu mesmo depois. Começado o espetáculo, eu ficaria muito tempo no palco, “atuando”. Como disse, eu era uma das principais, só fazia menos que a própria Barbie. Certa hora do teatro, logo no começo, a gente descia uma escada lateral do palco e ia para o nível da plateia. Só que isso foi mudado de última hora. Tava muito escuro, eu não conseguia enxergar onde eu tava pisando e de repente, sinto uma dor quente e horrível no pé direito. Virei.  O-oh! é o mesmo pé da minha lesão anterior. Na hora, senti uma bola no calcanhar, e não dava pra pisar direito.

NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO!

Eu tinha que continuar a peça, não interessa a dor que estava sentindo. Ainda mais agora, que estava perto do público, não podia demonstrar nada. Engoli a dor e fui.

Sabe o que é pior?

Ainda não era hora da noiva russa.

Não tava nem perto.

Desesperei.

Tinha muita coisa ainda pra acontecer. Eu fiz tudo. A adrenalina ajudou, e eu detesto que as coisas fiquem sem sentido, então me esforcei ao máximo para fazer tudo o que a história pedia, pras pessoas não ficarem perdidas. Só que, com isso, eu só piorava minha situação. Na hora de me trocar, eu mal aguentava pisar, já estava mancando. Me troquei e fui ajudar as crianças que dançavam antes de mim. Uma dança antes da minha, comecei a chorar.

Eu não tava conseguindo subir na meia ponta. Meu tornozelo estava inchadíssimo.

Fui pra um cantinho, parei (pra não borrar minha maquiagem) e comecei a pensar na injustiça. Poxa, gente, vocês não sabem o quanto eu corri pra dar tudo certo para os outros, e deu errado pra mim.

Poxa, vida, o espetáculo passado eu não dancei por ter machucado esse mesmo pé.

Poxa, mundo, diante de tudo que eu tive que resolver, você me derruba justamente agora? QUE INJUSTIÇA!

Destino, sai pra lá. Eu mereço esse momento. Mereço SIM!

Não sei como, dancei. E que eu me lembre, só não segurei a meia ponta duas vezes, mas consegui. Tudo meia ponta baixa, claro, mas era o máximo que dava. Sorte minha que a dança usa muito mais os braços que as pernas.

E quando eu entrei no palco, realmente senti a música e dancei como nunca antes. Pode ser clichê o que disse, mas foi exatamente isso. Tanto que não fiquei brava por ter errado uma coisinha ou outra.

Voltei na correria para voltar à outra personagem. Agora, na história, ela tinha que fazer piruetas. Muitas! Mas meu pé estava num estado que não dava mais pra esticar. O que eu faria? Pensei em soluções, mas tinha que ser pirueta, porque falariam que eu faria as benditas cujas. E fiz. As mais cagadas da minha vida. Isso acabou de vez com meu pé.

No final, eu tinha praticamente uma bola de tênis no meu tornozelo.

Acabando o grand finale – que foi emocionante, povo. agradeci sozinha lá na frente (como a personagem teatral), e me senti tão feliz quando fui aplaudida! -, peguei minhas coisas do camarim e fui procurar meus pais. Não tirei foto com ninguém, perdi todo aquele climão bom de fim de espetáculo, eu já não aguentava mais.

Fomos pro hospital. O ortopedista disse que quase quebrei o pé, e tive que colocar uma tala até o joelho. Tenho que ficar dez dias sem andar, e tomando antibiótico.

Lá mesmo, no hospital, eu desabei. Chorei muito mesmo. O meu primeiro – e provavelmente último – solo de verdade, minha primeira participação importante, tudo estragado por causa de uma escada. Quando eu finalmente podia ter sido plena e me sentido leve, estava sentindo uma dor horrível, estava pesada e preocupada.

Não era essa a lembrança que eu queria.

Me senti tão sozinha. Sensação que nada dá certo pra mim. É egoísmo pedir que isso aconteça uma vez? que eu tenha a minha hora?

Mas, destino, chega aqui: quero ver agora você chegar na minha cara e dizer que eu não posso fazer alguma coisa. Terça provei para mim mesma que eu posso fazer tudo o que quiser.

Uma coisa é certa: ballet ensina que a gente aguenta mais do que imagina.

ººº

desculpa, gente. fim de ano a gente espera um post mó legal sobre a nossa apresentação, com detalhes, fotos, felicidades, mas esse ano não deu.

ººº

fica pro post que vem. Foto do figurino, vídeo e o que mais tiver. =)

Anúncios

9 comentários em “Quando tudo conspira…

  1. Cyndi querida, chorei ao ler seu post. Você só me contou a parte “leve”, sequer imaginava coisa que você escreveu, desde o racismo até o fim da noite no hospital. Primeiro, vou te dar um longo abraço para acalmar um pouco o seu coração. Depois, você passou com louvor no teste da bailarina. Não, no teste da artista. Você É uma artista, porque não parou, porque sabia que o palco e a plateia eram importantes naquele momento, porque pensou em todos os outros em cena, porque seguiu em frente mesmo depois de chorar. E, não, não será o seu último solo, nem que eu faça um espetáculo para você solar. Falo isso não apenas porque somos amigas e amo você, mas porque você MERECE!

    Beijo imenso, cheio de admiração.

  2. Cyndi, que guerreira você é! Por muito menos eu teria desabado de vez, não sei se teria essa força que você teve para continuar. Mas não deixe isso te frustrar, foi só uma experiência que não saiu como o esperado. Nem pensar nesse ser seu último solo, você precisa de muitos outros solos para dançar leve e com tudo, sem nada te atrapalhar. Você é uma bailarina e tanto! Te aplaudo de pé. 🙂

  3. Cyndi, eu não sei nem o que te dizer!
    Ok, eu consigo. Vamos por partes.
    Não sei como tem gente que acha que racismo não existe (curiosamente são as mesmas pessoas que fecham o vidro do carro, apertam o passo ou seguram a bolsa mais firme quando passam perto de um negro, vai entender…), mas é o que dizem: o pior cego é o que não quer ver. Mas me deixa feliz ver que é uma barreira possível de se quebrar – tá aí a Misty Copeland que tem que ser a primeira de muitas e não me deixa mentir. Não digo que por ela ter se tornado primeira bailarina no ABT o racismo lá acabou, pelo contrário, mas é uma luz no fim do túnel.
    Assim como a Misty e qualquer outra bailarina que dance um solo ou um pas de deux, você fez por merecer esse momento (não exatamente “qualquer outra”, mas deixa isso pra lá. É uma situação particular hahahahahaha). Você fez por merecer prestando atenção na parte “chata” da aula (na explicação dos movimentos e tal), ensaiando no cantinho e dando o seu máximo mesmo não podendo ir à aula sempre. A gente acha que não, mas os professores prestam atenção nisso.
    Sobre o seu pé… Cyndi, é preciso muita coragem e muita força para aguentar tudo que você aguentou, para deixar o sofrimento de lado e entrar num palco sorrindo como se nada estivesse acontecendo e dançar como nunca. Já passei alguns apuros em espetáculos (quem não?), mas é tudo fichinha perto disso que você descreveu, fiquei até com vergonha de mim hahaha.
    Cyndi, meus parabéns. O ballet clássico não tem dó de ninguém, não importa se é a aluna do baby class da escola da esquina ou se é a primeira bailarina de uma companhia internacional (vide a Lauren Cuthberson, que está de molho há uns bons seis meses; no instagram tem foto dela até de cadeira de rodas). Mesmo assim, você foi lá e mostrou pra todo mundo do que era capaz. Essa força e essa garra é que fazem um artista de verdade. Parabéns mesmo!
    Um grande beijo e um abraço super apertado!

  4. Meniiiiiiiiinas, tô chorando! coisa mais linda vocês!
    quero abraço coletivo, junta aqui todo mundo!

    e eu tenho certeza absoluta que vocês, no meu lugar, fariam o mesmo, porque transparece em vocês o mesmo amor pela dança que eu tenho, se não mais! e também, a adrenalina na hora dá um impulso, hehe.

    agradeço de coração tudo o que disseram, tô me sentindo bem melhor depois de todas essas palavras bonitas! =’)
    *chorando de novo*

    muitas amoras!!!
    Beijocas!

  5. Poxa, que pena! Sou uma leitora nova e também tenho uma história meio triste sobre a apresentação desse ano. Se quiser ler sobre isso me avise Cyndi 😦

  6. Olá, Ana!
    Pode dividir com a gente, sempre que quiser. não tem problema! =)

    Beijocas
    p.s.: eu também erro o tempo todo. Esse ano só começa quando eu voltar a estudar, hehe

Comenta. É grátis! :-D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s