Vamos falar de imagem corporal?

Tema pesado, né, mas eu quero falar mesmo assim, porque me toca.

Começando do começo, eu sempre fui magrinha. Desde criança, eu era alta e magra, e ouvi muita gracinha. Nada muito exagerado (e eu sei que tem gente que passa perrengue), mas também nada divertido. Só que, na puberdade, eu ganhei muito quadril – e só. Não desenvolvi muito mais corpo que isso. Daí, eu passei minha adolescência inteira e me achando muito desproporcional – na verdade, continuo achando -, e também incomodadíssima com a hipersexualização dos bumbuns. Não foi legal.

Quando eu entrei no ballet, e passei a fazer duas aulas por dia, todos os dias, eu ganhei uns músculos bem bacanas, e, pela primeira vez, gostei do meu corpo. Eu gosto desses músculos suaves que o ballet proporciona! até meu bumbum diminuiu um pouco, hehe. E meu peso, que sempre foi 60kg (distribuídos num corpo de 1,74cm), nessa época passou a ser dois quilos a menos. Só que não parecia tanto, porque eu tinha músculos também, que fazem volume mas não pesam como gordura.

Um tempo depois, acho que nas férias do ballet, eu emagreci mais dois quilos (ou seja, 56kg) e me senti horrível! Magra demais pra minha altura! Não gostei nem um poquinho. Só que eu tenho uma dificulade para engordar…  o máximo que pesei foi 61kg, quando eu fiquei quase um ano longe do ballet (foi na época que torci o pé). E adivinha? Me senti gorda.

Eu não estava gorda, longe disso. Mas eu estava minimamente diferente do corpo que eu me acostumei e aprendi a gostar… e isso me incomodou bastante. É muito ruim? Porque, às vezes, eu penso num futuro mais gordinho e não gosto nada nada. Não sei quanto peso hoje, mas, quando toco nas minhas gordurinhas bobas, eu me acho “gorda”. Não é no sentido total da palavra, mas é o desejo de que aquela carne não estivesse ali. Mas nem é muita, sabe?, e o pior é que eu sei que é besteira, mas é um incômodo que não passa.

Nós temos a consciência que essa coisa toda é mais profunda do que um se gostar ou não, no mundo do ballet. Há uma ideia de como o corpo de um bailarino deve ser e esse corpo é extremamente magro, e não exatamente com uma aparência saudável. Aliás, não só no que tange aos bailarinos, o padrão estético da sociedade é o mesmo: alto, magro.

Perigoso, perigosíssimo.

Esse tema deve ser tratado com muito cuidado, porque a busca por um corpo inacançável mexe com a saúde física E mental. Sim, estou falando de distúrbios alimentares

E

do meu enorme medo de desenvolver um.

Bailarinos são um grupo complicado. Ficamos muito tempo em frente a um espelho corrigindo nossas falhas; nos é jogado na cara um ideal de beleza por toda parte (professores, partners, espectadores, colegas apontando o dedo, inclusive nossa própria expectativa); a demanda física da atividade também é desgastante, enfim… E o pior: falar de distúrbios alimentares no ballet ainda é um tabu!

Ter consciência do que pode nos acontecer é importante. Eu me esforço, de verdade, pra aprender a amar meu corpo de novo, só que não é fácil. Creio que não é fácil para muitos de nós! Ainda me acho desproporcional, ainda acho gorduras onde provavelmente não tem, e ainda detesto as que sempre me incomodaram. E há o fato de eu comer pouco e me exercitar quase todos os dias.

E se eu emagrecer e continuar incomodada?

E sejamos sinceros, quantos de nós estamos gordos mesmo? Tô falando de sobrepeso, de gordura que te atrapalha a viver. Pouquíssimos, me atrevo dizer.

Esse post está sendo bem difícil de escrever, porque é muito fácil apontar para o que está acontecendo com o resto do mundo, mas é outro esqueminha pra apontar pra si mesma. Não, eu não creio que possua algum distúrbio alimentar; não deixo de comer e não penso se vou engordar ou não antes de comer alguma gostosura (e como com gosto!), mas creio que meu psicológico está um pouquinho afetado com essa estética que eu seu que é absurda, e, sinceramente, não sei qual é pior.

Olhem para si mesmos, caros colegas dançantes, e ponderem bem sobre seus corpos! Devemos ficar sempre atentos! É importantíssimo termos o corpo saudável para dançar, não dá pra desperdiçar o único que a gente tem! E é muito curioso quando, para nos convencer de algo que não somos realmente, o incentivo é sempre de fora; porém, para nos convencer de algo que somos, o incentivo deve vir de dentro. Mil pessoas podem falar algo positivo sobre você (o que você considera positivo), e, mesmo assim, ainda há a dúvida. Então, devemos aprender a amar, amar de verdade!, nossos corpos.

De dancinha pelada em frente ao espelho admirando nossa maravilhosidade em dancinha pelada em frente ao espelho admirando nossa maravilhosidade, chegamos lá (eu gosto muito de dançar essa aqui, se alguém está interessado nessa minha técnica, hahah).

°°°

O site Cloud & Victory participou da Eating Disorders Awareness Week com uma série de posts sobre o café da manhã de bailarinos profissionais e a importância de comer bem.

E a Cássia já falou sobre esse assunto no blog dela, sendo os meus preferidos “Existe um tipo físico ideal?“, “‘Você tem de emagrecer’” e “Eat Right. Respect your body. Dance Forever.” Recomendo!

Creio que o post já está muito grande, mas queria finalizar com uma reflexão que vi não lembro onde, mas mudou minha perspectiva (por enquanto, só em relação aos outros, não a mim): quando alguém reclama que está gordo, nós prontamente tentamos agradar, ou mesmo afugentar tal pensamento, e dizemos “você não está gordo(a), está lindo(a)”. Opa, peraí! Não tem como ser gordo e lindo? Algo errado não está certo. Pra refletir, não é mesmo?

Anúncios

6 comentários em “Vamos falar de imagem corporal?

  1. Querida, uma grande luz amarela está piscando loucamente na sua frente, é o momento “atenção”, mas vamos conversar com calma outra hora. Há tantas coisas importantes no seu texto, tantas coisas para serem discutidas… Talvez seja o momento de retomar esse assunto lá no meu canto, o que você acha? Beijos.

  2. Poxa, Cyndi… Vou confessar que tô me sentindo mal agora. Tenho 1,73m e peso em torno de 70kg 😦 Mas acho que cada um é de um jeito, né?
    Sobre a obsessão com magreza: acontece em tudo. Minha professora de ballet nunca (graças a Deus) disse que tal ou tal aluna precisava emagrecer – tanto é que na nossa academia temos os mais diversos tipos de corpo -, mas mesmo assim carrega o trauma de ter tido uma aluna (agora ex, por outras razões) com um caso grave de anorexia. A menina chegou bem perto da morte. Não posso dizer que não é culpa do ballet, porque ela mesma, como bailarina, pode ter se olhado no espelho e pensado, “se eu for mais magra vou conseguir dançar melhor”. E olha que ela era excelente.
    Mas como eu disse, está em tudo. Minha mãe, por exemplo, adora apontar o quanto eu e minha irmã mais velha engordamos. Ela tem a melhor das intenções, eu sei, mas não é coisa que se faça. Nas capas das revistas só dá as magérrimas.
    Eu sou uma pessoa saudável. Isso quem diz são meus exames médicos, analisados por um profissional qualificado e competente. Sei que poderia perder uns quilinhos (dois ou três estaria ótimo) mas não tenho paciência (na verdade tenho um pouco de preguiça), além de nutrir um amor profundo por bolo, chocolate, brigadeiro, pizza, batata frita e outras delícias. “Nooooooooooooossa, mas você é bailarina e come tudo isso?” Como isso e muito mais, parceiro. Mas, é claro, minha dieta é composta, majoritariamente, de arroz e feijão, frutas, legumes, alimentos integrais (pão de forma, aveia), etc. Se não fosse assim com certeza não seria saudável. Mas a questão é a seguinte:

    EU NÃO SOU OBRIGADA A SER MAGRA.

    Pronto, falei. E, usando as palavras da Cássia, senti milhares de tomates e pedras serem atirados em mim.
    “Sarah, mas você é bailarina!”
    Eu sei. O meu peso atual não atrapalha minha dança. Além disso, para dançar, um corpo SAUDÁVEL não só me basta como também é essencial.
    “Mas é tão bonito ser magra!”
    Bonito pra quem? O “padrão da mulher brasileira” (sim, eu sei que isso é horrível, desculpa) tem como sua principal característica o bumbum grande, que, adivinha?, o padrão magra-anoréxica-pele-e-osso-com-as-costelas-aparecendo não consegue.
    “Você tem obrigação de cuidar do seu corpo!”
    Sim, eu tenho. E faço isso. Lembra que eu falei que meus exames disseram que está tudo ok? Lembra que eu falei que levo uma dieta balanceada, dentro do possível? Lembra que eu sou bailarina e, portanto, faço exercícios físicos regularmente? Não confundam “cuidar do corpo” e “ser saudável” com “ser magra”. Sim, muitas vezes esses conceitos são causa e consequência um do outro, mas não é um conceito absoluto.
    Não faz muito tempo, a página “Só Bailarinos”, do Facebook (que de vez em quando posta umas atrocidades que sempre envolvem crianças na ponta), postou uma foto HORRÍVEL da Svetlana Zakharova (sempre ela, Sarah? Sim! Sempre ela! Não tenho nada contra ela, juro, mas também não tenho culpa que ela reúne tudo o que eu critico no ballet clássico). Ela estava de costas, com o tutu da Bela Adormecida. Dava pra contar não só as costelas, mas TODOS OS OSSOS daquela criatura. É só dar uma pesquisada rápida no google imagens pra verificar o quanto ela é magra. Tem uma foto que dá pra contar os ossos do ESTERNO dela (é um osso que fica na parte da frente do corpo, no meio das costelas). E essa mulher é a rainha da porra toda na Rússia.
    Mas voltando ao post: Cyndi, se esse seu pensamento te incomoda, você já está um passo adiante, o que facilita bastante as coisas pra você. Reconhecer que há ou, pelo menos, que talvez haja algo errado é o primeiro passo. Minha dica é: procure um psicólogo, se você puder. Não acho que você tenha algum transtorno alimentar, mas percebi que tem um sinal de alerta aceso aí em algum lugar. E um psicólogo é a pessoa mais qualificada do mundo pra nos ajudar a entender o que passa na nossa cabecinha. Além disso, se você quiser “discutir” ou alterar seu peso E FAZER ISSO BEM, sem te prejudicar, POR AMOR A TUDO QUE É SAGRADO procure um nutricionista.
    Um grande beijo e desculpa o textão

    1. Sarah do céu, seu comentário foi pro spam e eU NEM VI!!1!

      Mas que beleza de comentário, como sempre (cê devia criar um blog)!!

      Você tá se sentindo mal com seu peso agora? :O MIL PERDÕES (E MIL PERDÕES A TODOS QUE SE SENTIRAM ASSIM AQUI), realmente, não era a intenção! A intenção, na verdade, era mais uma conversa comigo mesma pra me mostrar o absurdo dos meus pensamentos.

      É importantíssimo ser saudável, sim, inda mais quem usa o corpo tão ativamente, mas você sabe que a pressão do estereótipo tá em tudo mesmo.. Porém-contudo-todavia, creio que o padrão tão bem representado pela Zakharova esteja mudando…

      MANDO UM BEIJO PRA MISTY COPELAND, PRA ASHLEY BOUDER, PRA SARA MEARNS, PRA ALICE RENAVAND, PRAS MANAS DE CORPO ATLÉTICO ESPALHADAS PELAS CIAS DO MUNDO! (vai ter post sobre isso)

      Eu não quero mudar meu peso, hehe, estou satisfeita em mantê-lo. Sei que poderia emagrecer horrores e continuar com meus incômodos, então não vale o esforço (até porque eu também tenho preguiça. até porque eu também amo bolo)

      Muito obrigada pela preocupação, Sarita! ❤ Beijocas

      1. Eu sempre achei meu peso ok pra minha altura, aí vi que temos mais ou menos a mesma altura e vc pesa uns muitos quilos a menos que eu e fiquei tipo :O mas comi um chocolatinho (mentira hehehe) e passou.
        Acho que foi pro spam porque eu fiquei muito tempo digitando e aí não foi e eu achei que tinha perdido o comentário e mandei de novo. Sei lá, o wordpress me odeia.
        No mais, VAI MISTY!

Comenta. É grátis! :-D

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s