Muito barulho por nada

Vocês já ouviram falar em ouvido absoluto?

Tá bem explicadinho no doc “Escuta só: Ouvido Absoluto” (um doc muito bem feitinho, viu, e ainda tocam Serenade lá no meio <3). Tem quase 30 minutos e eu não espero que vocês vejam tudo, mas eu vou dar uma explicadinha/resumidinha aqui. Grosso modo, é uma condição que faz com que a pessoa, sempre que escuta um som, saiba a nota musical correspondente. Como se, num canto de passarinho, ela percebesse o lá, mi, mi, sol, dó. Ainda é discutido se se nasce com ouvido absoluto, ou se com um fator que facilita tal condição, ou se é treino. MASS, com intenso trabalho musical, você pode desenvolver ouvido relativo, que é o que identifica o som com alguma referência anterior.

Pareceu incrível no começo, mas as pessoas que possuem essa característica apontaram uns lados ruins disso. A professora de percepção musical Aída Machado diz que seus alunos que tem ouvido absoluto “têm uma dificuldade de ouvir um acorde, de ouvir a beleza dos acordes” (acorde é quando se toca mais de uma nota por vez); o violista Levi Fernando diz que sente dificuldade em apreciar uma música, porque ele tá sempre ouvindo “nota, nota, nota… e isso cansa”, hehe.

Bem, esse não é esse exatamente o assunto do post, mas é um modo de ilustrar o que eu quero dizer hoje. Peraí que a gente chega lá!

Dia desses, eu conversei com um amigo sobre o tempo que nós estudávamos violino, e da saudade, etc etc. Ele falou que viu um moço tocando violino no ônibus; o pessoal lá dentro achou lindo, mas ele, que tem um conhecimento bom de música e do instrumento, disse que tava bem ruinzinho (mas geeeente, como que fica bom dentro de um ônibus também, né? achei coragem). Enfim. Notei que, depois que nós adquirimos esse conhecimento, é bem difícil se contentar com pouco.

Isso me fez lembrar outra conversa, dessa vez com a fadinha. Ela havia assistido um ballet e me contou como não dá pra ficar neutra assistindo uma coisa que conhecemos tão bem. “tal pé está torto, esse salto não foi muito elegante, três giros cravados!” são pensamentos que correm durante toda a apresentação. Eu também faço isso… como muitos também fazem, aposto!

Vocês percebem o que eu quero dizer? Como quem tem ouvido absoluto e só ouve “nota, nota nota”, nós, que temos conhecimento, só vemos “técnica, técnica, técnica”! Perdemos um pouco da graça de sentar, relaxar e apreciar o espetáculo. É bem mais fácil nos frustrarmos porque nosso padrão é mais alto do que o da plateia comum. E quem quer sair do teatro achando tudo meia-boca? Imagina só, você não vai ver uma cena dessas e achar bom, nem agradável, nem emocionante.

Mas sabe quem provavelmente vai? o público leigo. Assim como o pessoal do ônibus achou linda a apresentação do moço.

Chegamos no tema do post. Ufa.

Sabe quando nossos pais/parentes/amigos nos veem dançando, ou mesmo fazendo um exercício, e acham tudo maravilhoso, e nós soltamos um “claro que não! tá tudo torto/errado/frouxo/outro defeito”? O que estamos fazendo, gente? Querendo tirar a graça deles também?

Então, como não enxergar só técnica? Como voltar a ficar encantada com a história (mesmo que você já a tenha assistido milhares de vezes)? Acho que seria a mesma coisa de perguntar como desligar o ouvido absoluto.

Tentando ser “inocente” de no, ao invés de olhar para os pés, coisa que faço desde que comecei a dançar, eu foco na expressão facial, nas trocas de olhares entre os bailarinos, nos braços e nos – tcharam – bailarinos do fundo. Quando a encenação é boa, eles são a melhor coisa pra sentiro clima. Quer ver? Assista à cena da loucura de Giselle e olhe só pros camponeses.

O problema é que conhecimento sempre nos deixa mais críticos… Acredito  é um exercício diário: tirar o monóculo, descer da sua cátedra, ouvir a música, apreciar o esforço da pessoa, se deixar envolver, perceber que as falhas fazem parte da vida e da dança – inclusive das suas -, correr pro abraço.

Um post meio doidinho só pra dizer: relaxa, fia.

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4 comentários em “Muito barulho por nada

  1. Amei o texto e o questionamento, o problema é conseguir relaxar. Com a literatura eu já consegui, eu corrijo os erros enquanto leio de maneira tão automática que eles não me incomodam, quem sabe um dia eu consiga com o ballet. Tentarei, prometo! ❤

  2. Ai Cyndizinha, esse vídeo me deu um pouco de agonia. Confessei.
    Mas não porque a técnica das meninas em si seja ruim. Provavelmente são iniciantes, a gente entende. E convenhamos, eu “conquisto” a plateia (A CONVENCIDA HAHAHA) pq me jogo, me entrego (sou daquelas que com certeza choraria de verdade na morte de Giselle se estivesse em cena), mas a minha técnica também não é lá essas coisas.
    Me deu um pouco de agonia ver pessoas aparentemente iniciantes usando sapatilha de ponta. Me incomoda um pouco ver gente dançando com cara de alface – mas nesse caso tem explicação: nos comentários, a própria dona do vídeo diz que elas não “curtiram” dançar porque precisavam se concentrar muito pq é difícil acompanhar a música. Me deu agonia as meninas se espremendo pra dividir o palco que não parece ser dos maiores com o piano (piano?) ali no cantinho – a pior coisa DO MUNDO é dançar em um lugar apertado. Mas amei de paixão os tutus coloridos ❤
    Fui muito chata? Fui, né? Ai. Desculpa.
    Mas vou começar a fazer isso que você falou! Prestar atenção em coisas que não envolvam técnica – tipo os tutus, nesse caso ❤

    1. Hahah, adoraria ver uma apresentação sua! Certeza que arrasa muito :*
      A ponta me incomodou sim, mas o que mais incomodou é alguém ter dado essa coreografia que é além do que elas poderiam fazer. Cadê bom senso? Não se coloca odette pra nível intermediário, né, minha gente!
      Pode ser chata aqui, o blog é pra isso mesmo, hahah

      simm, foquemos nos tutus! Nas saias esvoaçantes! Nas coroasss!

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