Destrinchando Giselle I – Senta que lá vem história

(+sarah)

Esse primeiro post vai ser mais teórico (porque bailarina clássica tem que estudar teoria, SIM), contando a história do ballet, fofocas curiosidades, etc. Então vamos lá.

“Giselle” é o grande símbolo do ballet no Romantismo (exemplos de obras dessa época: Iracema, Noite na Taverna, O Guarani, Canção do Exílio, O Navio Negreiro, Memórias de Um Sargento de Milícias… Acho que já deu pra se situar, né?). O libreto foi escrito por Vernoy de Saint-Georges, Théophile Gautier e Jean Coralli, a coreografia é de Jean Coralli e Jules Perrot e a música é de Adolphe Adam, que também compôs “O Corsário” e outro ballet chamado “La Filleule des Fées”, além de diversas óperas cômicas.

“Giselle” foi criado em 1840 e sua estreia ocorreu em 28 de junho (MEU ANIVERSÁRIO! ❤ com um século e meio de diferença, mais ou menos) de 1841, na Ópera de Paris.

A bailarina responsável pela interpretação da personagem principal foi Carlotta Grisi (isso mesmo, a do Pas de Quatre e da sapatilha de ponta), para quem Gautier criou o papel. Lucien Petipa (não, não era o coreógrafo – aquele é Marius, irmão dele) interpretou Albrecht e o próprio Jean Coralli ficou responsável por dar vida a Hilarion.

O ballet se passa na Alemanha (sempre achei que fosse na França, mas minhas fontes apontaram Alemanha, então vamos nessa) e conta a história de uma jovem camponesa, Giselle, por quem um nobre, o Duque Albrecht (sempre achei que fosse Conde, mas minhas fontes apontaram Duque), da Silésia, se apaixona. Para conquistar sua amada, ele finge ser um camponês chamado Loys, e seu sentimento é correspondido por Giselle. Contudo, o caçador Hilarion, que também é apaixonado por Giselle, desconfia de Loys e está sempre à espreita tentando desmascará-lo.

O ballet começa com o dia amanhecendo e os camponeses indo para a colheita; é vindima, época de uvas. Hilarion se aproxima da casa de Giselle e, como sempre, desconfia de “Loys”, que “mora” na casa em frente. Depois que Hilarion sai de cena (ou, em algumas versões, se esconde), Albrecht/Loys aparece, acompanhado de seu criado, Wilfrid. Albrecht conta que está apaixonado por Giselle e Wilfrid tenta convencê-lo a abandonar tudo e voltar para a corte, sem sucesso. Quando é dispensado, Wilfrid se despede com uma reverência, o que (nas versões em que ele está escondido) surpreende Hilarion e levanta mais suspeitas.

Albrecht/Loys bate à porta da casa de Giselle e ela aparece. Eles dançam juntos, mas são interrompidos por Hilarion, que se declara para Giselle e é rejeitado. Ele intimida Albrecht para um duelo e o duque instantaneamente gesticula para puxar a espada da cintura, mas lembra que está vestido como camponês e não carrega sua espada consigo.
Hilarion vai embora. Outros camponeses aparecem e Giselle e suas amigas dançam para comemorar o final da colheita.

Berthe, mãe de Giselle (aliás, por que é que, tirando Julieta e Aurora, as mocinhas do ballet NUNCA tem o pai E a mãe? #mistério), sai de casa atrás da filha e, ao descobrir que ela estava dançando, a repreende, lembrando de seu coração fraco. Berthe aproveita os camponeses reunidos e conta a história das Willis, que são noi­vas mor­tas na vés­pera do casa­mento, cuja alma não consegue des­can­sar nas sepul­tu­ras. À meia-noite, elas levan­tam de seus túmulos e se encon­tram. Qualquer rapaz que cruze o cami­nho delas é for­çado a dan­çar até a morte. Elas estão ves­ti­das de noiva, arranjo de flo­res na cabeça e anel no dedo. Depois dessa cena, Giselle tem que voltar para casa e os camponeses vão embora. Nesse momento, Wilfrid aparece, alertando Albrecht sobre a chegada dos nobres, e o duque vai embora. Hilarion aproveita esse momento para entrar na “casa” do rival.

Os nobres, acompanhados pelo Príncipe de Courtland e sua filha Bathilde, chegam à vila, e Berthe e Giselle os recebem. Bathilde e Giselle conversam, e a camponesa conta que está apaixonada e prestes a se casar, e é presenteada pela princesa com um colar (em algumas versões é uma espécie de colar de contas feito com pedras preciosas, em outras é uma corrente simples com um pingente). Mais alguns camponeses dançam (nesse momento temos o Pas de Paysant) e os nobres se hospedam na casa de Giselle e em outras casas próximas. O Príncipe de Courtland deixa pendurado na porta da casa de Giselle uma espécie de corneta, para chamar os outros nobres quando acordar.

Hilarion sai da casa de “Loys” carregando a espada que encontrou, e se depara com a corneta pendurada do lado de fora da casa de Giselle. Alguns camponeses se aproximam e ele foge.

Giselle é chamada por seus amigos (em algumas versões, esse é o momento em que ela é coroada “rainha” da vindima) e Albrecht/Loys está por perto. Mais uma vez o casal dança, acompanhado de outros camponeses, até que Hilarion aparece para desmascarar o Duque. Ele mostra a todos a espada de Albrecht, que nega tudo, então Hilarion chama os nobres com a corneta. Sem ter para onde fugir, Albrecht é confrontado por Bathilde sobre seus trajes de camponês, e responde que tudo não passou de uma brincadeira.

Desesperada, Giselle interrompe a conversa dos dois e diz para a Princesa que Loys é seu noivo, e leva um susto quando Bathilde diz que também é noiva de Loys, mas que ele, na verdade, é o Duque Albrecht. A camponesa arranca o colar que ganhou de Bathilde e o joga no chão, tenta cometer suicídio com a espada de Albrecht, é assombrada pelas Willis e se lembra de seus momentos com Albrecht, até que seu coração não aguenta mais e ela morre nos braços do Duque.

O segundo ato se passa na floresta, à noite. O corpo de Giselle já foi sepultado e Hilarion e Albrecht vão ao local para demonstrar seu amor e seu remorso. Giselle aparece para Albrecht e eles dançam juntos. Hilarion encontra as Willis e é forçado a dançar até morrer de exaustão; várias vezes ele implora piedade de Myrtha, Rainha das Willis, mas ela não cede. Albrecht aparece logo depois e recebe a mesma pena de Hilarion, mas Giselle o protege usando a cruz de seu túmulo e tomando o lugar do Duque na dança em alguns momentos, o que faz com que ele sobreviva até o nascer do sol, quando as Willis desaparecem.

C’est fini. Lágrimas. Aplausos. Gritos. Flores. Mais lágrimas.

Algumas curiosidades:

1- Apesar de ter sido responsável por grande parte da coreografia, como os solos de Giselle, a cena da loucura e a dança de Hilarion com as Willis, Jules Perrot não recebeu os devidos créditos pela coreografia. Como colaborador, ele teria direitos autorais sobre a peça. Acredita-se que ele tenha aceitado isso porque tinha esperança de ser promovido dentro do teatro onde ocorreu a estreia, o Paris Opera. Somente já no século XX, com a intervenção de Serge Lifar, é que a Ópera de Paris passou a dar os créditos a Jules Perrot.

2- Carlotta Grisi, a Giselle da estreia, também nasceu em 28 de junho, mas em 1819, exatos 22 anos antes da estreia do ballet. Aliás, Giselle foi seu papel mais conhecido. Grisi viveu bastante para a época (eu acho), quase 80 anos, até 20 de maio de 1899. Grisi dançou Giselle aqui no Brasil em 23 de junho de 1949, e dois dias depois, durante aniversário da coroação de D. Pedro II.

3- Quando Giselle foi montado na Rússia pela primeira vez, o papel principal coube a Fanny Elssler, que foi convidada para dançar o Pas de Quatre com Carlotta Grisi, Fanny Cerrito e Marie Taglioni, mas não aceitou e foi substituída por Lucile Grahn.

4- Auguste Bournonville estava em Paris durante a montagem de Giselle e passou alguns dias com Jules Perrot e Carlotta Grisi; acredita-se que ele tenha auxiliado Perrot na montagem do ballet.

5- O Pas de Paysant foi inserido no último minuto, para Nathalie Fitzjames, em favor a uma influente patrocinadora, Mademoiselle Fitzjames, tendo sido dançado com Auguste Mabille.

6- Giselle saiu do repertório da Ópera de Paris em 1867, e só retornou em 1910 com o Ballets Russes, graças a Sergei Diaghilev. Nessa ocasião, Tamara Karsavina e Vaslav Nijinski interpretaram os papéis principais.

7- A coreografia que conhecemos hoje tem como base a montagem de Petipa (o Marius) de 1887. Como todos os ballets, essa coreografia sofreu alterações ao longo do tempo, mas a versão mais próxima desse original de Petipa é do Mariinsky Ballet.

8- Na versão do Bolshoi (e acredito que nas demais companhias russas também), Hilarion recebe o nome de Hans das Ilhas do Sul. Deve ser mais fácil para a pronúncia dos russos.

9- Na coreografia original, Giselle comete suicídio com a espada de Albrecht, mas a cena foi considerada muito chocante na época, causando rejeição do público, então foi feita uma alteração no libreto e ela passou a morrer do coração. Com essa alteração, o ballet foi um sucesso absoluto. (“Sarah, todo mundo sabe disso”. Ah, vai que tem alguém ouvindo falar do assunto pela primeira vez?)

10- As Willis foram amplamente inspiradas em um trecho da obra “De l’Allemagne”, de Heinrich Heine, com o qual Saint-Georges se encantou e imediatamente quis criar um ballet a partir do que tinha lido.

Então é isso, gente! Esperamos que vocês tenham gostado, amanhã tem mais 😉

 

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