Destrinchando Giselle V – Loucura, som e fúria

(+sarah)

Ah, a loucura de Giselle. Um dos momentos mais tocantes dos ballets de repertório. Se você não sente nem um apertozinho no coração enquanto assiste, então: 1) tá assistindo errado, assiste de novo; OU 2) você não tem coração e já está morto ou morta. (+cyndi: seria você uma wili?! Prazer, sou sua fã! Fique à vontade, ali tem biscoitos)

A situação é a seguinte: os camponeses estão todos dançando, comemorando o fim da colheita, Giselle e Albrecht juntam-se a eles e são interrompidos por Hilarion, que diz a verdade para toda a aldeia e ainda chama os nobres para confirmar. O que ele não esperava era provocar um ataque cardíaco em Giselle, acho. Espero.

Curiosamente (ou não), a cena da loucura é um dos únicos momentos do primeiro ato que não sofre alterações substanciais de uma versão para outra, mesmo com o passar dos anos. Acho que muitas de nós são capazes de reproduzir a encenação de cabeça (eu sou).

Lauren Cuthbertson como Giselle pelo Royal Ballet, foto de Johan Persson

É um momento muito forte, artisticamente falando. Nas palavras do Australian Ballet, “A ‘cena da loucura’ que se segue [à descoberta sobre Albrecht] é uma cena carregada que se baseia nas habilidades dramáticas mais poderosas de uma bailarina”. Em outras palavras, abertura rasgada e piruetas múltiplas não salvam ninguém nesse momento, e isso “pega” muita gente, que perde a mão e faz uma Giselle não de coração partido, mas afetada. A loucura em si acaba pesando mais do que a causa.

Por outro lado, a cena da loucura não é sustentada por Giselle sozinha. Vamos pegar como exemplo Albrecht e Hilarion.
Giselle morta. Corpo de baile de um lado para o outro feito barata tonta. Música “gritando”. Em tese, os dois devem estar desesperados nesse momento, sem falar da raiva um do outro. Mas quantas performances vocês já assistiram em que os bailarinos realmente transmitiram isso? Eu confesso que poucas me marcaram nesse sentido (aliás, uma vez vi um Albrecht que fez um salto na hora de tentar atingir o Hilarion com a espada e fiquei tipo WTF). Muitas Giselles já me fizeram chorar, mas Albrecht? Poucos. Hilarion? Acho que nenhum.

Eu gosto de prestar atenção, naquela pequena cena pós-morte, na interação entre Albrecht e Berthe. Já contei pra vocês que no dia 30/7 o Thiago Soares dançou Giselle aqui em São Paulo com a Mayara Magri e a Cia. Brasileira de Ballet. Teve um momento da cena em que o Albrecht/Thiago estava ajoelhado ao lado da Giselle/Mayara e a Berthe se aproximou. A expressão do Thiago quando olhou pra ela nessa hora e a reação dele depois foram absolutamente inesquecíveis.

A Alessandra Ferri (<3) disse em uma entrevista (na descrição do vídeo tem a tradução do áudio para inglês) que vê a morte de Giselle como uma morte simbólica, um “ritual” pelo qual toda menina deve passar para se tornar mulher – o que, na minha opinião, é uma filosofia bem interessante, ajuda muito a dar o tom certo à cena e também a provocar a identificação da plateia, afinal, quem de nós, independentemente do gênero, nunca teve o coração partido?

 

(+cyndi)

A cena da loucura marca a divisão do primeiro ato, alegre, doce, bucólico, e do segundo ato, sombrio e atemorizante. É tomada como uma das cenas mais difíceis para uma bailarina, que aponta quem realmente é uma prima, uma estrela.

Concordo, mas uma Giselle sozinha não faz verão.

A cena toda foi pensada em conjunto com os coreógrafos e o compositor para entregar o clima adequado. A música tem papel importantíssimo nessa cena (em todas, vai, mas nessa é mais marcante), desde a repetição do tema de Giselle e Albrecht, até o andamento da música e a pungência dos instrumentos.

Adolphe Adam, cena final do primeiro ato, ROH Orchestra

Já na parte coreográfica, a pantomima é o principal, além, claro, da interação entre os personagens principais (Giselle, Albrecht, Hilarion e Berthe) e o corpo de baile (os camponeses e os nobres). Todo mundo tem que estar afinadinho! A vergonha de um, o desespero de outra, o arrependimento deste, a aflição daquela, a perplexidade e incredulidade do resto.. tudo ao mesmo tempo, misturado, apoiado pela música, pelo cenário, pelo figurino, pelo cabelo despenteado.

Mas, agora, foi morte do coração ou suicídio? Difícil. Originalmente, era suicídio, mas foi considerado pesado pra plateia vitoriana. Mudaram para morte por coração partido pra agradar o ideal romântico da época.

Neste texto, Peter Wright é enfático ao dizer que ela se matou coma espada de Albretcht, por isso foi enterrada em solo “não sagrado” e ficou desprotegida das wilis (isso me levanta outra questão, mas fica pro próximo post). Porém, do que eu digo da personagem no segundo post da série, também acho o suicídio pesado pra ela. Mas totalmente possível. E se sua saúde fraca fosse alguma doença brava que a tirava toda a esperança de um futuro, daí Loys veio pra trazer alegria, e de repente é tudo esfarelado na frente dela… então ela só encurta o futuro impiedoso? Vai saber.

Acredito que, ao invés de ser OU uma OU outra, as mortes foram juntas, por coração e por espada.

Agora, Giselle é uma wili, está separada do seu amor para sempre e deve seguir mesmo destino das jovens enganadas antes do casamento: atormentar os homi.

 

 

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