Notas de uma bailarina tímida

Sabe quando você tem uma característica e toma como certo que vai ser sempre assim? “Eu sou animadona e isso não vai mudar”, “Eu gosto de usar roupa preta e vai ser assim pra sempre”, “Vou manter meu cabelo longo e cabô”. Uma característica que você carrega no íntimo e parece ser a definição – junto de outras características – de quem você é?

Uma das minhas é a timidez. Ou era.

Vejam bem: antes, me chamar de tímida era falar que água é molhada. Mas, hoje em dia, eu quase brigo com as pessoas para elas acreditarem que eu sou tímida. “Eu sou sim!” É quase como se elas estivessem negando, ou não enxergando, uma parte inerente da minha personalidade.

O bom de crescer é que você percebe que suas certezas adolescentes são tão firmes quanto gelatina. Percebi que a minha timidez está sumindo aos poucos e… ¯\_(ツ)_/¯

Pra começar, eu era uma criança muito tímida, ratinho de biblioteca e com poucos amigos. Eu sempre falava rindo e tinha uma dificuldade enorme de conversar olhando nos olhos das pessoas. Quando nova, eu não via problemas nisso, claro, mas, cresci um pouco e percebi como poderia me prejudicar.

Acho que o primeiro baque foi quando fui apresentada a uns amigos de minha amiga e um deles perguntou a ela, depois, se eu tinha ~problema. Eu fiquei embasbacada! Foi aí que comecei a me observar e me corrigir.

A primeira coisa que tentei mudar foi olhar nos olhos. Me forçava até ficar desconfortável, mas era importante pra me acostumar.

Porém, logo em seguida, comecei a fazer ballet. E lá eu fui forçada a enfrentar mais desconfortos. Mostrar o corpo, para quem é tímido, é sacrificante. Pessoas te observando e corrigindo? Um martírio. O rosto fica quente, as mãos suam, a voz não sai. Tem gente que trava o corpo inteiro. Mas essas situações são importantes, elas aumentam o coro do “sobrevivi!!”.

Porque é isso, né, a timidez é o medo de se expor.

Se você enfrenta esse medo, ou seja, se expõe, e sobrevive todas as vezes, (ou quase todas, hehe! às vezes rola um mico básico), o medo diminui.

E a gente se expõe demais no ballet. Expomos o corpo, expomos as falhas, expomos nossos medos e fraquezas. A partir do momento que você abraça essas situações como necessárias e inevitáveis, além de completamente normais, você se solta.

E, miga, ninguém tá olhando tanto assim pra você. Tem um espelho enorme lá e todo mundo é meio narcisista no ballet.

Ah! Sabe quando você tá no ônibus e  tira um cochilo, aí dá aquela pescada? Você acorda toda assustada e olha pros lados achando que todos estão rindo de você, mas, SURPRISE, ninguém nem viu! A vida é assim! E se viram, bulhufas, ninguém te conhece e vão ou não dar importância ou esquecer disso em dez minutos.

Então, pra fechar, as dicas-modo-conciso são:

  • Enfrente sua timidez. Ser tímido não é anormal, mas nós sabemos que a timidez atrapalha nossa vida social e limita a quantidade de coisas incríveis que podemos fazer.
  • Exemplo de coisa incrível que perdemos: pedir mais ketchup quando o seu acabou.
  • Se exponha! Você vai sobreviver! Confie em mim. Eu era um casulo e hoje sou uma borboleta boba.
  • “Olha como eu sou engraçadinha, que bobinha eu”
  • Crie confiança em você mesmo, e não se importe tanto assim com o que os outros pensam.
  • Nobody yes door
  • (Essa eu não comentei lá em cima, mas lá vai:)
  • Rir!!
  • É!!
  • Ótimo!!
  • Rir de si mesmo deixa a situação mais leve, tira a tensão de que você acha que estão todos te julgando e rindo de você, porque agora estão rindo com você. Percebe a diferença? 😉
  • Sério mesmo! Humor foi minha maior ferramenta.
  • Criar um blog e fazer críticas ao professor e só saber que ele o lê quando ele comenta seus posts em aula também ajuda.

Gentes, eu já perdi as contas de quantas vezes eu falei “rapaz, eu fiz ballet. Tive que dançar de collant e sainha na frente de um monte de gente. Cê acha que eu vou ter vergonha disso?” Porque, né, mais da metade das situações embaraçosas (leia-se: para um tímido. Pedir guardanapos no balcão da lanchonete, jogar o lixo na lixeira do outro lado da sala, etc) fica FICHINHA perto disso. Né não?

°°°

E, pra quem quer um papinho mais científico, eu li este artigo e adorei.

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3 comentários em “Notas de uma bailarina tímida

  1. Minha teoria é que existem graus e tipos de timidez.
    Eu, por exemplo. Sempre me considerei tímida. Talvez não com uma amiga muito próxima ou com a minha família, mas com o resto do mundo, sim. Sou a pior pessoa pra se apresentar a alguém, pois tenho pavor de puxar assunto. “Especialista em conversa de elevador” definitivamente não é algo que está no meu currículo. Na maioria das vezes, eu converso com as pessoas sem olhar pra elas – mas estou lutando pra corrigir isso. E, é claro, porque o destino adora zombar da nossa cara, eu sou advogada. O que significa que, como parte da minha rotina, eu tenho que falar com clientes, outros advogados, juízes, desembargadores. “It – A Coisa”, “Exorcista”, “Poltergeist”, “Atividade Paranormal”, nenhum filme de terror é páreo para essas situações. Quando vamos fazer uma conferência, meu chefe tem sempre que me dar um toque: “não esquece de falar bom dia/boa tarde, se apresenta…”. Não é falta de educação, gente, eu juro por Deus. Meus pais sempre me ensinaram direitinho. É vergonha.
    E pra ajudar, eu sou introvertida, o que significa, de maneira simples e resumida, que depois de todo esse esforço e toda essa interação eu fico exausta. Como eu disse, o destino adora zombar da nossa cara.
    Nesse artigo que você indicou, em determinado momento, o autor fala que uma das características da timidez é a auto-consciência ou auto-foco, ou seja, o tímido tem a sensação de que todo mundo está prestando atenção nele e, por consequência, julgando cada respiração. ISSO É MUITO REAL. Eu me formei há um ano, o que significa que a maioria esmagadora dos advogados e juízes é mais velha e, portanto, mais experiente do que eu. Inevitavelmente eu fico com a impressão de que os outros estão me olhando e pensando, “ih, coitada, essa aí é recém-formada”, “vou acabar com ela fácil, fácil”, “desde quando estagiário pode fazer audiência?” e coisas do tipo.
    Vai vendo.
    Mas eis que, quando eu danço, tudo isso some! Aliás, eu sinto que, dançando, consigo expressar tudo que não consigo falar. “O corpo diz o que as palavras não pode dizer”, para alguns é só um clichê, mas para mim, é tão real que chega a doer. Não é doido? Nunca tive medo de palco, nem dos espelhos, nem fico me comparando com as minhas colegas de turma. Não sei se é porque eu faço ballet desde criança ou se é porque a dança é um momento tão meu que eu esqueço que o resto do mundo existe. Não sei se é porque, pra me apresentar, eu ensaio meses a fio e no dia a dia não tenho esse privilégio. Mas lembro que quando eu estava para me formar e percebemos que essa questão de timidez ia se tornar um problema real, meu chefe não conseguia entender; “Mas você é bailarina!”, ele falava, e minha vontade era devolver: “É diferente!”. Claro que nunca respondi, porque, como eu já disse, ele é meu chefe e eu sou tímida. Acho que até hoje ele não entende, mas eu já consigo contornar essas situações – aos trancos e barrancos, claro, mas sobrevivo -, então ele se dá por satisfeito.
    Ah, gente, e por tudo o que há de sagrado: nunca, NUNCA, coloquem um tímido numa situação desconfortável e apontem: “Ih, ficou vermelho/a!”. Não é engraçado, não é fofo, não é nenhuma novidade pra nós, não é algo que a gente possa controlar e A GENTE NÃO GOSTA DE SER ASSIM! Obrigada, de nada.

    1. Ah, quase esqueci.
      “Nossa, mas você é tímida e escolheu justo ser advogada? Escolheu a profissão errada!”
      Anotado, amore.

    2. Sarinha, me traz uma caneta aqui pra eu assinar embaixo!

      Bem, pelo menos você venceu a timidez na dança! YAY!! Talvez dê pra aplicar o que você disse (“para me aprrsentar, eu ensaio meses a fio e no dia a dia não tenho esse privilégio”) na vida. Seja loucona, ensaie diálogos enquanto toma banho! Sei lá, finge que tá vivendo momemtos de elevador enquanto a comida tá no microondas, hahah.
      Eu já passei um bom tempo procurando assuntos bobos pra conversinha. Talvez te ajude!

      Beijocas!!

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