O “fouetté fail” e a crítica odiosa

Hoje de manhã (28/03), pouco antes de sair para trabalhar, vi no instagram da Misty Copeland um print de um tweet falando mal dela. Não era uma crítica construtiva, não era comentário de um defeito pontual, parecia puro ódio no coração.

A moça do Twitter (procurei e parece que ela apagou a conta) dizia que a Misty era “a PIOR”, que era uma vergonha para o ABT tê-la como bailarina principal, e ainda jogou nela a culpa de considerarem o ballet americano uma piada. Misty, classuda ao extremo, escreveu sua resposta. Você pode ver, em duas partes, aqui e aqui. [Para os que não falam inglês, uma tradução rápida do tweet: “é por ISSO que a @mistyonpointe é a PIOR e porque é uma vergonha o @ABTBallet tê-la como bailarina, muito menos como principal. Não surpreende o resto do mundo pensar que o ballet americano é uma piada”. Vou dever a tradução da resposta.]

Eu senti, naquela hora, um fundo racista muito rasteiro ali. Não tinha tempo de ver o vídeo, então não abri o link. Mas saí de casa com essa sensação.

Ao voltar, a queridíssima Sarah (que agora escreve posts aqui também , vocês – três leitores – notaram?), enfim, a queridíssima Sarah comentou comigo sobre essa polêmica. Aí sim, parei pra ver o vídeo e…

Tive certeza. Era racismo.

Pode parecer que é exagero ou vitimismo. Estamos em tempos difíceis, onde a luta dos oprimidos é desdenhada e diminuída a todo custo, quando dizem coisas como “negros que enxergam racismo em tudo” ou “não pode dizer nada contra um negro que eles falam que é racismo”. Mas não é.

Para descobrir se tal fala é racista, é simples. Faça a pergunta: falariam isso se essa pessoa fossa branca? Se não, pronto, é racismo. É a mesma lógica do sexismo, se não fizessem/falassem do mesmo jeito com homens, é sexista, machista.

Vamos analisar. Misty se preparou para os fouettés da coda do pas de deux do terceiro ato de O Lago dos Cisnes. Fez piruetas e puxou o primeiro fouetté, só que não conseguiu subir na ponta.

Esse erro só nota quem faz ballet! Vocês podem olhar nos comentários, várias pessoas dizendo que não notaram erro algum. É uma besteirinha insignificante na carreira de uma bailarina. E pode ter sido por tantos motivos! Pouco breu e linóleo escorregadio, sapatilha que ficou mole demais – ela já dançou o pas de deux todo e a variação, e o pé dela parece um cavalo de forte -, bateu luz nos olhos, não pisou direito, pode ser que a unha dela tenha quebrado nesse exato momento, e se ela tava num dia ruim? Ou pode não ter sido nada, só aconteceu. Shit happens! Ninguém é perfeito, nem será.

Na escala dos erros, eu daria para esse um sincero 2.

Depois disso, acho que a Misty não se sentiu segura o suficiente (por isso eu acho que foi a sapatilha, ou, no mais, fadiga muscular?) para terminar a música com fouettés e fez piqué tours. Não chamo nem de erro, chamo de adaptação.

Uma adaptação é feita todos os dias em todos os ballets, tenho certeza, em maior ou menor grau. Bailarinos ensaiam para fazerem o melhor e o mais fielmente possível à coreografia, mas também treinam todo dia e se apresentam diversas vezes para terem jogo de cintura e driblarem situações adversas.

Acontece que foi feita uma adaptação numa parte conhecidíssima, e, portanto, a notamos. Além do mais, algumas montagens já apresentam essa parte igualzinha à que a Misty fez, e outras nem fazem fouettés.

Eu tô tão besta com esse vídeo, gente, porque é tão insignificante! Tem bailarino que cai de cara, de bunda no chão, e se recupera, como a Misty se recuperou.

Quero aproveitar o assunto para outro comentário, também pertinente. Quando assisti ao Royal, uma bailarina entrou correndo no palco e, na hora do passo (um piqué com développé), a sapatilha escorregou e ela caiu de popô. Eu nem tchum, mas o público, rapaz, fez um OH! em conjunto e aquilo reverberou naquele teatro gigantesco. Esse OH! gelou a minha espinha. Parece que a bailarinos não é permitido o erro. Que ideia é esse de perfeição que insiste no meio do público? (Isso puxa gancho pra oooutro post que quero fazer. Tá tudo ligado, isso é muito Dirk Gently).

Voltando. E desses bailarinos que chegaram a cair, você ouviu um piu desse tamanho? Dessa bravura? Duvido.

É desonesto usar um trecho isolado de uma carreira inteira e classificar a bailarina como A Pior, A Vergonha do ABT. Não falariam isso se fosse qualquer outra bailarina branca. E essa moça ainda deslegitimou a conquista da Misty! Como ela pode ser tão maldosa em tão poucos caracteres?!?!

Isso é ódio no coração.

As críticas à bailarinas brancas são pontuais, erros de performance. Já a Misty foi declarada vergonha da companhia. Essa avalanche de impropérios só seria jogada contra uma bailarina branca se ela errasse muito, mas muito mesmo. Por que negras são atacadas por muito menos?

Sabemos a resposta.

Negros tem que ser 10 vezes melhores para terem uma chance. Qualquer coisinha é uma desculpa para desmerecer sua conquista. Qualquer erro é desculpa para tirar seu destaque.

E, vamos combinar, Misty Copeland tem muito destaque. Não só como bailarina, mas como bailarina e mulher negra (ela mesma cita essa condição em sua resposta. Até que ponto pode-se ou não separar suas figuras?).

Misty é responsável por uma nova onda de espectadores no ballet, espectadores negros. Ela traz um tipo físico novo ao cenário. Ela fala com públicos que eram ignorados, que se sentiam ignorados. Ela abre portas para bailarinas negras em companhias pelo mundo todo. Ela inspira alunas a seguirem seus sonhos. Ela carrega uma responsabilidade enorme e é um alvo fácil para comentários como esse. Imaginem o quanto de besteira que ela já ouviu!

Mas, ainda bem que o mundo tem muito amor por ela! Muitos bailarinos se manifestaram em seu favor. Cá estou eu, me manifestando também.

Misty é um marco na história! Não deixemos ser diminuída  por fouettés a menos.


[Sarah]

Hoje começou como um daqueles dias em que eu rezo pro tal cometa chegar logo.

Assim como a Cyndi, abri o Instagram e me deparei com uma imagem de um tweet extremamente agressivo, pra não dizer ofensivo, criticando a Misty Copeland e o ABT.

Na hora fiquei assustada. Achei que algo grave tivesse acontecido, mas ao mesmo tempo nada que passava pela minha cabeça parecia ser o suficiente para justificar aquela… Violência.
Depois de ler a resposta da Misty, em duas partes, fui atrás do vídeo.
Sinceramente, esperava vê-la caindo de boca ou pagando outro mico enorme no palco – e, como eu disse, ainda assim, nada parecia o suficiente para justificar a reação daquela pessoa. Nada ERA o suficiente para justificar a reação daquela pessoa.

O vídeo: a coda do grand pas de deux do Cisne Negro, nossa velha conhecida, dançada por Misty Copeland e Herman Conejo.

Misty entra, se prepara, puxa os fouettés. Ocorre que ela não usou toda o tempo da música que as bailarinas geralmente usam pra girar, e improvisou com uma sequência de piqués.

Se a Cyndi não tivesse falado, eu nem ia ter reparado que ela não sobe na ponta. Tive que rever o vídeo pra perceber.
Sinceramente, gente: quem nunca?
(Eu, porque nunca girei um fouetté na vida, quem dirá na ponta. Mas segue o baile).

E sim, eu também senti que havia algo a mais naquela fala tão agressiva. Também senti que a autora do tweet foi racista. NÃO, não é vitimismo. Não é mimimi. É a realidade. Não vou me estender muito nesse assunto, porque não me cabe, mas achei importante destacar isso.

Artistas, principalmente os que se apresentam ao vivo, estão permanentemente expostos a riscos. Risco de errar o tempo, de perder a música, de se confundir na marcação de palco, de esquecer o texto e… De não conseguir executar um passo. Há uma frase, vou ficar devendo o autor, que diz, “se você nunca falhou, então nunca fez nada na vida”.

Misty ralou muito pra chegar onde chegou. Conseguiu o posto de primeira bailarina de uma das companhias mais importantes dos Estados Unidos (pra não dizer do mundo) com muito esforço. Pra vir uma fulana e dizer que porque ela não conseguiu um dia completar a sequência de fouettés ela é a pior bailarina que existe? Quero ser ruim assim!

Nesse momento, pensei: “acabou. É isso. O ballet clássico pode fechar para balanço. Eu desisto.”. Mas fui ler os comentários.

Gillian Murphy, Julie Kent, Marcelo Gomes, Steven McRae, Ingrid Silva (do Dance Theatre of Harlem), sem falar nos milhares de fãs e anônimos, imediatamente se mobilizaram e encheram as redes sociais da Misty de amor e admiração, reproduzindo (de coração, acredito) um discurso que a gente vem propagando há tempos: ballet clássico é muito mais do que fouettés. O Lago dos Cisnes é muito mais do que fouettés. O cisne negro por si só é muito mais do que os fouettés: se a bailarina não convencer que esta seduzindo o Príncipe Siegfried, não vai adiantar nada incorporar o pião.

Até quando vamos medir o quanto uma bailarina é boa pela quantidade de giros que ela consegue executar ou pela altura que sua perna chega? Francamente, Margot Fonteyn e Maya Plisetskaya devem se revirar no túmulo toda vez que alguém faz isso.

Um sopro de esperança: a matéria da Pointe Magazine (link). Depois de narrar a história toda, eles fecham com chave de ouro: “Obrigada, Misty, por nos lembrar que ballet é mais do que técnica – e que mesmo os profissionais têm dias ruins (e tudo bem)”.
Obrigada, Misty.

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4 comentários em “O “fouetté fail” e a crítica odiosa

  1. Ótimo post, Cyndi! Sem dúvida que foi só desculpinha pra destilar ódio. Muita gente ainda não aceita a Misty como bailarina principal por ser negra. Eles ficam feito urubus esperando ela errar pra falar montes de bobagem. Foi racista sim. Eu vi a resposta dela. Ia até traduzir e postar, mas não tive tempo. Enfim, Misty não vai deixar de ser linda por existirem pessoas maldosas. 🙂

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