Destrinchando Giselle VII – Curtain Call

E, para finalizar, um apanhado dos nossos favoritos!

– Figurinos

Giselle – Natalia Stewart, Royal New Zealand Ballet
Giselle – Aleksandr Benois, Teatro Alla Scala
Albrecht – Jérôme Kaplan, Pacific Northwest Ballet
Hilarion – Mario Giorsi e Giusi Giustino,
  Teatro di San Carlo
Camponeses – Yumiko Takeshima, SemperOper Ballett
Myrtha – John Macfarlane, Royal Ballet
Wilis – Alexandre Benois, Paris Ballet

 

– Montagens

Que já vi: Royal Ballet (Peter Wright)

Que quero ver: SemperOper Ballett (David Dawson), Royal New Zealand Ballet (Ethan Stiefel)

No Vídeos de Ballet Clássico tem um monte de montagem de várias companhias pra baixar 😉

 

– Cast

Giselle – Alina Cojocaru

+ Manuel Legris como Albrecht pelo Tokyo Ballet 

Alessandra Ferri

+ Massimo Murru pelo Alla Scala

Myrtha – Marianela Nunez

Akane Takada. As expressões malignas dela são ótimas, especialmente aquele sorriso meio sádico, cruel que, na minha opinião, define Myrtha.

Albrecht – Marcelo Gomes

(Aliás, Marcelo Gomes em qualquer papel né? Mozão <3)

 

– Música

Entrada das wilis

Pas de deux do 2° ato

 

– Fotografia

Evgenia Obraztsova como Giselle pelo Bolshoi, foto de Yekaterina Vladimirova

 

– Penteado

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Mayara Magri pelo Royal Ballet, foto de Tomas Kolish Jr

°°°

Espero que vocês tenham gostado! Nós descobrimos muita coisa bacana e não vamos ver Giselle com os mesmo olhos de antes. Tomara que vocês também não! É uma história incrível que ainda tem muito a ser discutida ❤

Deu um trabalhão, ufs!, mas acho que vai rolar mais séries dessa no futuro 😉

 

 

 

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Destrinchando Giselle VI – Documentário Investigativo: Myrtha, Zulma e Moyna

Myrtha

Né possível que ninguém vocês não tenham se perguntado por que a Myrtha é a rainha das wilis.

Marie Agnes Gillot como Myrtha pelo Paris Ballet, foto de Icare

A história dela não é contada claramente em nenhum lugar que eu procurei. Há teorias de que ela é a rainha porque ela era rainha ou nobreza em vida. Ou será porque a morte dela foi a pior? Ou ela é mais malvada que as outras e se colocou na liderança? Será que teve votação? Ela é a mais velha?

Myrna Jamus, uma prof muuuito entendida de ballet – uma pessoa com repertório e referência vastos – me passou umas informações bem legais. Entre elas, disse que a Nora Esteves, do Teatro Municipal, contava que a Myrtha era a rainha porque a maldição começou com ela. Oloco, bixo.

Tatyana Terekhova como Myrtha pelo Kirov Ballet

E sabe aquele galho que a Myrtha carrega e meio que funciona como uma varinha/cetro? É um galho de murta (que parece a palavra morta, hein?). Em alemão, myrte, e PROVAVELMENTE daí que vem seu nome. Outra coisa: a planta murta é símbolo do amor e do casamento. Chora, bb, eles pensaram em tudo!

Ah, sim! No post anterior, quando eu falava acerca do suicídio, e de Giselle ter sido enterrada em solo “não sagrado” e desprotegida das wilis, me veio à mente se todas as wilis se mataram, por isso não encontram o descanso eterno e vagam pela noite… creio que sim, então faz mais sentido ainda Giselle ter se matado mesmo.

Neste relato, a bailarina Elana Altman, solista do San Francisco Ballet, conta que encara a amargura e ódio de Myrtha como máscara pro seu coração partido -afinal, ele é uma wili também. A diferença de Myrtha pra Giselle é que esta foi capaz de perdoar, enquanto aquela alimenta seu rancor há sabe-se lá quantos anos…

Vamos passear na floresta enquanto as wilis não vêm…

Como rainha, Myrtha dá a sentença ao TOLOS homens que cometem a BURRICE de ir pro meio da floresta de noite (sério, gente. quem faz isso?), e, pelo visto, todos ou dançam à exaustão, ou são jogados no lago pelas suas assistentes, Zulma e Moyna, porque homem nenhum presta. #boilixo

Myrtha precisa de um abraço forte e de muita terapia.

°°°

Zulma e Moyna

Mas conhecidas como “QUEM?”. Acreditem ou não, aquelas duas semi-solistas do segundo ato têm nome, shock. E têm “história” também!

História entre aspas, porque, assim como de Myrtha, não achei muita certeza:

Aqui diz que Zulma se matou pulando de um penhasco, então sua variação é cheia de saltos, e Moyna se afogou, por isso sua dança parece presa à corrente do rio. Mas essa fonte indica que Moyna era uma odalisca e Zulma era uma bayadère, e assim que as variações delas são meio temáticas. O que não exclui a possibilidade do suicidio de ambas e as variações/personagens serem uma mistura desses fatos.

Emile Cozette como Zulma e Laura Hecquet como Moyna pelo Paris Ballet (a partir dos 3:19)

Também há francesas e alemãs na parada. Ao que parece, então, o segundo ato reune wilis de vários países.

As wilis são internacionais, fia. Juntou todo mundo no túmulo de Giselle e.. peraí. Se elas são de outros lugares, por que tava todo mundo JUSTO na aldeia de Giselle?

Provável que pra saudar a nova integrante. Porque se não seria puta sorte as wilis serem do mesmo cemitério. E também puto azar nascer numa vila cheia de macho otário.

Então as wilis são itinerantes também?  Heheh

Acho chique.
“- Onde a gente vai atormentar os novinho hoje?
– Ai, menina, não sei… Bora pra Alemanha de novo.
– Ah, não, cansei de lá! Bora pra um país mais quentinho.
– Brasil?
– Partiu.”

Destrinchando Giselle V – Loucura, som e fúria

(+sarah)

Ah, a loucura de Giselle. Um dos momentos mais tocantes dos ballets de repertório. Se você não sente nem um apertozinho no coração enquanto assiste, então: 1) tá assistindo errado, assiste de novo; OU 2) você não tem coração e já está morto ou morta. (+cyndi: seria você uma wili?! Prazer, sou sua fã! Fique à vontade, ali tem biscoitos)

A situação é a seguinte: os camponeses estão todos dançando, comemorando o fim da colheita, Giselle e Albrecht juntam-se a eles e são interrompidos por Hilarion, que diz a verdade para toda a aldeia e ainda chama os nobres para confirmar. O que ele não esperava era provocar um ataque cardíaco em Giselle, acho. Espero.

Curiosamente (ou não), a cena da loucura é um dos únicos momentos do primeiro ato que não sofre alterações substanciais de uma versão para outra, mesmo com o passar dos anos. Acho que muitas de nós são capazes de reproduzir a encenação de cabeça (eu sou).

Lauren Cuthbertson como Giselle pelo Royal Ballet, foto de Johan Persson

É um momento muito forte, artisticamente falando. Nas palavras do Australian Ballet, “A ‘cena da loucura’ que se segue [à descoberta sobre Albrecht] é uma cena carregada que se baseia nas habilidades dramáticas mais poderosas de uma bailarina”. Em outras palavras, abertura rasgada e piruetas múltiplas não salvam ninguém nesse momento, e isso “pega” muita gente, que perde a mão e faz uma Giselle não de coração partido, mas afetada. A loucura em si acaba pesando mais do que a causa.

Por outro lado, a cena da loucura não é sustentada por Giselle sozinha. Vamos pegar como exemplo Albrecht e Hilarion.
Giselle morta. Corpo de baile de um lado para o outro feito barata tonta. Música “gritando”. Em tese, os dois devem estar desesperados nesse momento, sem falar da raiva um do outro. Mas quantas performances vocês já assistiram em que os bailarinos realmente transmitiram isso? Eu confesso que poucas me marcaram nesse sentido (aliás, uma vez vi um Albrecht que fez um salto na hora de tentar atingir o Hilarion com a espada e fiquei tipo WTF). Muitas Giselles já me fizeram chorar, mas Albrecht? Poucos. Hilarion? Acho que nenhum.

Eu gosto de prestar atenção, naquela pequena cena pós-morte, na interação entre Albrecht e Berthe. Já contei pra vocês que no dia 30/7 o Thiago Soares dançou Giselle aqui em São Paulo com a Mayara Magri e a Cia. Brasileira de Ballet. Teve um momento da cena em que o Albrecht/Thiago estava ajoelhado ao lado da Giselle/Mayara e a Berthe se aproximou. A expressão do Thiago quando olhou pra ela nessa hora e a reação dele depois foram absolutamente inesquecíveis.

A Alessandra Ferri (<3) disse em uma entrevista (na descrição do vídeo tem a tradução do áudio para inglês) que vê a morte de Giselle como uma morte simbólica, um “ritual” pelo qual toda menina deve passar para se tornar mulher – o que, na minha opinião, é uma filosofia bem interessante, ajuda muito a dar o tom certo à cena e também a provocar a identificação da plateia, afinal, quem de nós, independentemente do gênero, nunca teve o coração partido?

 

(+cyndi)

A cena da loucura marca a divisão do primeiro ato, alegre, doce, bucólico, e do segundo ato, sombrio e atemorizante. É tomada como uma das cenas mais difíceis para uma bailarina, que aponta quem realmente é uma prima, uma estrela.

Concordo, mas uma Giselle sozinha não faz verão.

A cena toda foi pensada em conjunto com os coreógrafos e o compositor para entregar o clima adequado. A música tem papel importantíssimo nessa cena (em todas, vai, mas nessa é mais marcante), desde a repetição do tema de Giselle e Albrecht, até o andamento da música e a pungência dos instrumentos.

Adolphe Adam, cena final do primeiro ato, ROH Orchestra

Já na parte coreográfica, a pantomima é o principal, além, claro, da interação entre os personagens principais (Giselle, Albrecht, Hilarion e Berthe) e o corpo de baile (os camponeses e os nobres). Todo mundo tem que estar afinadinho! A vergonha de um, o desespero de outra, o arrependimento deste, a aflição daquela, a perplexidade e incredulidade do resto.. tudo ao mesmo tempo, misturado, apoiado pela música, pelo cenário, pelo figurino, pelo cabelo despenteado.

Mas, agora, foi morte do coração ou suicídio? Difícil. Originalmente, era suicídio, mas foi considerado pesado pra plateia vitoriana. Mudaram para morte por coração partido pra agradar o ideal romântico da época.

Neste texto, Peter Wright é enfático ao dizer que ela se matou coma espada de Albretcht, por isso foi enterrada em solo “não sagrado” e ficou desprotegida das wilis (isso me levanta outra questão, mas fica pro próximo post). Porém, do que eu digo da personagem no segundo post da série, também acho o suicídio pesado pra ela. Mas totalmente possível. E se sua saúde fraca fosse alguma doença brava que a tirava toda a esperança de um futuro, daí Loys veio pra trazer alegria, e de repente é tudo esfarelado na frente dela… então ela só encurta o futuro impiedoso? Vai saber.

Acredito que, ao invés de ser OU uma OU outra, as mortes foram juntas, por coração e por espada.

Agora, Giselle é uma wili, está separada do seu amor para sempre e deve seguir mesmo destino das jovens enganadas antes do casamento: atormentar os homi.

 

 

Destrinchando Giselle IV – Friendzone

Pobre Giselle, os caras que gostam dela só vacilam. Pior que vacilam na boa intenção, o que não muda em nada o fato, nem ameniza a situação, mas… bem…

Assim como Albrecht errou, Hilarion também errou; afinal, foi sua ação que desencadeou a loucura toda. Mas, pra mim, é como se Hilarion fosse o culpado e Albrecht, o responsável.

Sabe, eu não gosto de novela porque muitas vezes o vilão é 100% mal e o mocinho é 100% bom, e isso é tão fake. Hilarion não é todo maldade, ele gostava de Giselle e tentou protegê-la da mentira toda, e, dois coelhos com uma cajadada, se livrar do pretendente e abrir caminho para conquistá-la. Acho que ele é mais egoísta que mau. Ciúme é uma coisa horrível! Ele queria que Giselle fosse feliz, mas que fosse feliz com ele e só com ele. Aí não é legal não, errou feio, errou rude.

Mas, assim, né, ele viu a oportunidade e se jogou de cabeça, e ele realmente não devia ter feito isso. O desespero e a raiva nunca ajudaram ninguém nesse assunto, certo? Creio que em assunto nenhum! Mas, pobrezinho, teve a esperança de Giselle ter olhos pra ele depois… a estratégia foi toda errada, olha só no que deu: com a verdade despejada na cara, no momento que ela achava ser o pico da felicidade, Giselle teve o coração espatifado e morreu (ou se matou, depende da versão que você gosta).

Pensa num arrependimento!

Isso ensina a gente a não fazer nada de cabeça quente.

Eu acho que ele não merecia morrer não </3 mas a plateia precisava de um exemplo do poder das wilis.

Kazuo Kimura como Hilarion pelo Tokyo Ballet

sente o medo!

 

(+sarah)

Oi, meninas! No vídeo de hoje vou ensinar vocês como NÃO agir quando o crush te dá um fora.
Não dá, gente. Por mais que o Albrecht seja um canalha cretino mentiroso filho de chocadeira, pra mim o grande vilão do primeiro ato, pra não dizer do ballet inteiro, é e sempre foi ele: Hilarion, também conhecido pelas companhias russas como Hans das Ilhas do Sul.

Albrecht mentiu. Fato. Isso é péssimo. Fato. MAS: qual foi a razão de ele ter mentido? Provavelmente nunca saberemos, a menos que Vernoy de Saint-Georges, Teóphile Gautier e Jean Coralli apareçam em alguma mesa branca por aí e contem pra gente. O que nós sabemos (contamos isso pra vocês lá nos primeiros posts) é que “Giselle” foi criado durante o Romantismo, o que provavelmente significa que o Albrecht, ao mentir, tinha algum propósito heroico, apesar de que, na minha opinião, se essa informação não está no libreto, não é importante para o público (sou advogada – ui, ainda não me acostumei com esse título – e por isso tenho muito a mentalidade de que se algo é importante, TEM que ser dito; “se não está no processo, não está no mundo” e coisas assim). Mas se as pessoas conseguem debater e criar teorias sobre Harry Potter 20 anos após o lançamento do primeiro livro, podemos tranquilamente debater “Giselle” – até porque o “Destrinchando Giselle” foi criado pra isso mesmo.
Mas voltando. Albrecht mentiu e isso é péssimo. MAS COM CERTEZA ELE NÃO PLANEJAVA CONTAR ISSO PRA GISELLE ENFIANDO A ESPADA NA CARA DELA, CHAMANDO TODOS OS NOBRES E SE DESMASCARANDO PRA ALDEIA INTEIRA. Tenho certeza que se recebesse a notícia com calma e com jeitinho Giselle não teria enlouquecido.

Além disso, vamos parar pra analisar o comportamento do Hilarion quando ele flagra Giselle e Albrecht juntos pela primeira vez durante o ballet. Além de puxar a faca pro duque (se o Albrecht não estivesse disfarçado com certeza o Hilarion ia ter enfrentado uma pena de morte), em algumas versões ele chega até a ser meio agressivo com a Giselle. No dia 30/7 assisti “Giselle” com a Companhia Brasileira de Ballet e Thiago Soares e Mayara Magri nos papéis principais e tive bastante essa impressão. O Hilarion até agarrou os braços dela! Sabe, quando você vai sacudir alguém? Não se faz isso com mulher nenhuma, seja ela real ou fictícia.

OU SEJA: Hilarion bonzinho? Pense duas vezes, miga.

A real é uma só: a Idade Média tava cheia de boy lixo (OLHA SÓ QUE COISA, ESTAMOS EM 2017 E NADA MUDOU).

Queria muito dizer que a “vingança” da Myrtha e das Willis no segundo ato é bem feito, mas não tenho essa capacidade. Mas também não tenho simpatia não. Hmpf.

Destrinchando Giselle III – Meu nome não é Johnny

espero que a referência do título tenha dado a entender o personagem de hoje…

(+sarah)

AHAAAA!!!! Chegamos no motivo da minha revolta!
Ele mesmo, o grande vilão que quer se passar por mocinho da história. O príncipe canalha. Vem pra cá, Albrecht! Bom, vamos lá. Albrecht é o duque da Silésia, está noivo da Princesa Bathilde e é apaixonado por Giselle.
Pausa. Rebobina. Volta pra qualquer vez que a Sarah assistiu Giselle antes daquele fatídico dia em que caiu a ficha (dica: foram muitas).

Eu nem sempre achei que o Albrecht fosse o “culpado” da história. Aliás até pouco tempo eu nem cogitava isso. É óbvio que se ele não tivesse mentido nada teria acontecido – mas aí não teríamos história. Agora SE AQUELE HILARION NÃO FOSSE TÃO RECALCADO E CIUMENTO TERIA FICADO TUDO BEM. Eu acho. Ou não, porque afinal de contas Albrecht era um nobre e Giselle apenas uma camponesa (se alguém aí assiste a novela das seis da globo e acompanhou o rolê da Domitila e do Dom Pedro entende o que eu digo).

Vamos esquecer as classes sociais por um segundo. Bora focar no amô.

Pra mim o Albrecht é aquele cara príncipe, fofo. Meu crush dos repertórios (ele e o Romeu e o Colas e o Basílio e OPA FOI MAL). Podem me julgar (aliás, mais alguém aí tem crush em personagem de repertório? Não? Ah, bom, deixa eu voltar aqui…). Eu no lugar de Giselle teria caído feito patinho na lábia dele MAS AÍ É QUE TÁ. Seria lábia? Paixonite? Amor verdadeiro?

Eu sempre acreditei que era amor. Até hoje acredito, mesmo tendo me dado conta do mentiroso que ele é. Posso citar aqui vários exemplos que ajudaram a me convencer, mas deixo vocês com três: Mikhail Baryshnikov (APELEI EU SEI DESCULPA mas a cena dele ajoelhado aos pés da Natalia Makarova “morta” mexe comigo), Roberto Bolle (recomendo a versão do Alla Scala de 2005 com ele e a Svetlana Zakharova) e Sergei Polunin (Bolshoi, 2015, também com a Zakharova – sempre salva pelos pares em Giselle, hein, Madame Zakharova? Tem que ver isso aí).

“Mas Sarah, se ele a amava tanto por que não falar a verdade logo de uma vez? Por que não enfrentar a corte, terminar com a Bathilde e fazer da Giselle a princesa?”

Não ia pegar bem. Os camponeses provavelmente iam adorar, é claro, quem não amava Giselle?, mas a nobreza? As pessoas importantes da época? Outros reinos? Pfff (ver comentário ali em cima sobre a novela das seis). Por que mentir?

Eu, Sarah, particularmente acho que foi algo do tipo, “vou me aproximar dela e ver se sou correspondido, depois vejo o que faço”.

E você, Cyndi?

*Cyndi entra ao som de aplausos*

(+cyndi)

Acho que é de opinião geral que Albrecht não vale nada.

Como já aprendemos, Albrecht, duque de Silésia, era conhecido nas ruas da vila como Loys, camponês. Ele se “disfarçou” de morador para ter mais contato com sua crush, Giselle. O grande problema dessa história, maior do que mentir seu nome e sua riqueza, é que ele já era noivo da princesa Bathilde.

Antes de sair julgando, paus e pedras nas mãos, vamos considerar um pouquinho da história de fundo disso. Eu também era team #albrechtotário, mas hoje consigo enxergar o lado dele.

Carlos Acosta como Albrecht em Giselle pelo Royal Ballet, foto de Bill Cooper

Antigamente, os filhos da nobreza eram como moeda de troca por favores políticos, proteção, alianças etc. Muita união sem amor era feita, e acredito que esse seja o caso de Albrecht e Bathilde. Imagine não ter essa escolha? A de quem você vai passar o resto da vida… Deusolivre! Casos extraconjugais e amantes eram coisa normal na high society – não quero dizer, com isso, que seja correto.

Creio que Albrecht se apaixonou de verdade por Giselle. Não sabemos como eles se conheceram, mas eu consigo imaginar todo um cenário. Será que ele a viu de relance durante um passeio pela vila, e se encantou? Será que eles conversaram? Todo mundo gostava de Giselle, ela era um amorzinho. Muito fácil se apaixonar por ela. Giselle, por outro lado, era mais reservada nesse sentido. Imagino os dois interagindo timidamente, ganhando a confiança dela aos poucos, até, finalmente, as cenas de namorico que a gente pode ver no palco. Em sua posição social, ele sabia que não seria possível um relacionamento (e o compromisso também impedia, né), mas não julgo, gente, se ele teve essa vontade de viver o amor, de se sentir amado e – por que não? – se sentir livre por alguns momentos. Pode parecer que ele só queria um caso, ou uma diversão… mas seria bem mais fácil encontrar outras mulheres dispostas a isso sem precisar de toooodo o esforço pra conseguir Giselle, né não?

Jane Austen disse um vez, “somos todos tolos, quando apaixonados”… só que você foi tolo demais, hein, Albrecht?! Te entendo, mas não concordo com suas ações. E, assim como Giselle, te perdoo.

Destrinchando Giselle II – Giselle, a flor do campo

A partir de hoje, vamos falar das personagens, a começar pela personagem-título. O ballet todo gira em volta de Giselle. Mas quem é essa moça?

Uma camponesa alemã, filha de uma viúva (ao que parece), de saúde delicada e coração fraco. Ama dançar. Extremamente adorável.

Nesta entrevista, a Alina Cojocaru ❤ faz uma análise tão bonita da personagem. Coisa de quem é muito sensível e coisa de bailarina experiente também. Ela diz que pensa em Giselle como uma moça muito feliz. Ela tem a saúde fraca, provavelmente perdeu o pai… com certeza ela passou por momentos muito difíceis e, mesmo assim, ela é agradável e gentil com todo mundo. Todos gostam dela! Os camponeses a coroam como rainha da colheita, mesmo ela sendo fraca pra ajudar; seus amigos se reúnem em sua casa; todos param para vê-la dançar. É uma querida! Com certeza, uma pessoa com uma energia muito boa. Isso vai além de pensar nela como uma moça inocente e apaixonada.

Alina Cojocaru como Giselle pelo Paris Ballet, foto de Icare

WHY DO BAD THINGS HAPPEN TO GOOD PEOPLE

Giselle não é uma boba; não gosto quando a bailarina a faz tímida demais. Minha imagem dela é mais de uma otimista inveterada do que mocinha de interiô. Como Alina disse, como ela pode ser tão feliz mesmo tendo passado por tanto perrengue? Leveza. Só que… bem… tudo tem um limite. Ter o coração estraçalhado foi o limite dela. Ser desenganada, estando tão apaixonada como ela estava, é avassalador. Enlouquecedor!

E, apesar dor pesares, ela perdoa quem a feriu. Protege da morte quem lhe tirou o chão. Mesmo ela mesma tendo morrido… LEVEZA. A vida é muito curta pra odiar, guardar rancor. Vingança? Credo. “Eu que não”, diria Giselle.

Courtney Richardson como Giselle e Fabien Voranger como Albrecht pelo SemperOper Ballett

(+sarah)

Giselle, para mim, é uma das personagens mais desafiadoras do ballet clássico, pelo menos no aspecto cênico. Eu a vejo quase como uma criança, totalmente inocente, pura, doce e alegre, e da mesma forma que nem todas as bailarinas têm (ou são capazes de transmitir) a malícia de Odile, por exemplo (*cof cof* Sarah Lamb *cof cof*), nem todas as bailarinas transparecem essa leveza e pureza de espírito tão características de Giselle. Da mesma forma que eu não acreditaria em uma Odile frágil, desconfio de Giselles muito precisas tecnicamente ou donas de si. Notem que, diferente da Lise, de “La Fille Mal Gardée”, a Giselle (aparentemente) não bola planos pra “escapar” da mãe e ficar com o Loys/Albrecht. Ela resiste um pouco, mas depois entra em casa e fica por lá.

A melhor personagem da Alina Cojocaru, na minha opinião (e na dos críticos também) era, até um tempo atrás (confesso que desde que ela foi pro English National Ballet não acompanho sua carreira tão de perto), Aurora. Mas ela é a própria personificação de Giselle, né? Fofinha, delicada, mas na medida certa, sem ser tonta.

Sabem quem eu também acho uma Giselle incrível? Alessandra Ferri. Espia só:

Alessandra Ferri como Giselle e Massimo Murru como Albrecht pelo Alla Scala

Isso, meus amigos, é que é arte.

Anatomy of a dance, NYCB

O canal do New York City Ballet fez uma série de vídeos intitulada “anatomia de uma dança”, que são trechos de ballet comentados pelos bailarinos. É superbacana! Eles falam do que é difícil ou fácil, de como eles trabalharam pra fazer tal passo, ou o que os inspirou etc.

O que eu mais gostei, dos que vi, foram dois do pas de deux do terceiro ato de A Bela Adormecida, um com comentários da bailarina, Tiler Peck, e o outro do mesmo trecho com comentários do bailarino, Tyler Angle (engraçado, né? Nome unisex… hehe). Uma aulinha de pas se deux!

Como eles falam inglês, fiz o meu melhooooor pra ~traduzir~ pra vocês. Perdoem qualquer coisa. E quem notar algum errinho, avisa nos comentários 😉

Ah, também é legal assistir ao pas com a atenção voltada a quem está falando e imaginar que essa voz está na cabeça deles, hehe.

0:01 Meu nome é Tiler Peck e eu estou dançando o papel de Aurora, em A Bela Adormecida. Eu acho que A Bela Adormecida é, de longe, o papel mais difícil para a bailrina no repertório [creio que ela se referiu ao repertório da companhia]. Ele me assusta e me anima toda vez. (~essa parte eu nao entendi bem)

0:20 No pas de deux do casamento é a primeira vez que me sinto confortável e “em casa” e “graças a Deus sobrevivi até aqui”! Eu relaxo e só aproveito dançar com o Tyler [Angle].

0:37 Essa pirueta é, na verdade, mais difícil do que parece. Quero dizer, tudo [os passos] é fácil, mas por causa da direção que você vai no penché.., assim, não muita gente pode fazer isso com uma mão.

0:58 Com o tutu é bem difícil pra o partner ver suas pernas e saber onde está seu equilíbrio. Isso é uma habilidade que o Tyler tem, ele tem um senso natural pra isso.

1:16 Essa sequência é bem fácil. Você só tem que aproveitar o momento, e ficar no ar, e tentar pensar no seu port de bras.

1:31 E então, as famosas pescadas. Você realmente tem que descobrir com seu partner [acho que ela disse] se isso vai parecer ousado e emocionante mas, ao mesmo tempo, tem um controle que vocês tem que [hm..] ~lacrar.

1:48 Honestamente, é meio doido, na pirueta, ele tem que me pegar já caindo pra frente, e eu não sei como acontece, mas acontece de algum jeito!

1:59 Essa é a última [pescada] e é quando você tá pensando “graças a Deus as duas primeiras foram bem, só falta uma”! Meio que faz seu coração feliz, especialmente quando todas vão bem!

0:01 Meu nome é Tyler Angle e aqui eu estou dançando o pas de deux do casamento de A Bela Adormecida. Eu sou o príncipe Désire e minha Aurora é a Tiler Peck.

0:12 Esse é um ballet meio estressante, porque é muito rígido [ele quis dizer, aqui, muito coisa ~de corte, sabe? Gente de castelo e nobreza e tudo o mais], é sobre executar apropriadamente os passos. É um trabalho bem tradicional, e você percebe isso em muitos movimentos, é bem evidente que isso [a história] aconteceu num ambiente de corte.

0:35 Aqui é um movimento meio complicado no pas de deux. Ela dá dois passos pra pirueta, grand rond de jambe indo pra um penché, e faz tão bem!, ela sabe exatamente onde seu peso deve ficar, assim eu consigo fazer os dois promenades com uma mão.

0:54 Num ballet tão icônico, onde tantas pessoas dançaram por tantos anos, é interessante achar onde nossa individualidade aparece.

1:03 Aqui, por exemplo, você vê que a Tiler, ao invés de parar abruptamente o braço no fim da pirueta , meio que para o braço e continua crescendo com a mão.

1:15 Esses levantamentos não são difíceis, quero dizer, há alguns detalhes técnicos, como você tem que levantar a bailarina na sua frente, então ela não fica diretamente no seu peito, mas a jaqueta é tão, tão pesada! Não dá pra notar daqui, mas ela é cheia de linhas de ouro e pedraria, o que faz os levantamentos ficarem mais difíceis.

1:36 E essa é a famosa diagonal das pescadas. Você tem que usar o momento que já existe no giro pra meio que não empurrar as pernas dela, então é basicamente uma pegada, e não um levantamento.

1:49 Eu tento fazer o passo em um movimento [(gente, reparem que ainda tem um dégage, socorr)], que assim a perna de baixo não balança debaixo dela e a perna de cima não mexe. A gente tenta não mexer aqui.

2:00 Eu acho que foi um processo bem legal, nós trabalhamos duro por muito tempo, então nós fomos capazes de chegar a um ponto onde estávamos confortáveis e gostar de nós mesmos no palco.

°°°

Eu amei essa série! Acho que vou fazer outro post assim, mais tarde. 😊