Destrinchando Giselle VII – Curtain Call

E, para finalizar, um apanhado dos nossos favoritos!

– Figurinos

Giselle – Natalia Stewart, Royal New Zealand Ballet
Giselle – Aleksandr Benois, Teatro Alla Scala
Albrecht – Jérôme Kaplan, Pacific Northwest Ballet
Hilarion – Mario Giorsi e Giusi Giustino,
  Teatro di San Carlo
Camponeses – Yumiko Takeshima, SemperOper Ballett
Myrtha – John Macfarlane, Royal Ballet
Wilis – Alexandre Benois, Paris Ballet

 

– Montagens

Que já vi: Royal Ballet (Peter Wright)

Que quero ver: SemperOper Ballett (David Dawson), Royal New Zealand Ballet (Ethan Stiefel)

No Vídeos de Ballet Clássico tem um monte de montagem de várias companhias pra baixar 😉

 

– Cast

Giselle – Alina Cojocaru

+ Manuel Legris como Albrecht pelo Tokyo Ballet 

Alessandra Ferri

+ Massimo Murru pelo Alla Scala

Myrtha – Marianela Nunez

Akane Takada. As expressões malignas dela são ótimas, especialmente aquele sorriso meio sádico, cruel que, na minha opinião, define Myrtha.

Albrecht – Marcelo Gomes

(Aliás, Marcelo Gomes em qualquer papel né? Mozão <3)

 

– Música

Entrada das wilis

Pas de deux do 2° ato

 

– Fotografia

Evgenia Obraztsova como Giselle pelo Bolshoi, foto de Yekaterina Vladimirova

 

– Penteado

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Mayara Magri pelo Royal Ballet, foto de Tomas Kolish Jr

°°°

Espero que vocês tenham gostado! Nós descobrimos muita coisa bacana e não vamos ver Giselle com os mesmo olhos de antes. Tomara que vocês também não! É uma história incrível que ainda tem muito a ser discutida ❤

Deu um trabalhão, ufs!, mas acho que vai rolar mais séries dessa no futuro 😉

 

 

 

Destrinchando Giselle VI – Documentário Investigativo: Myrtha, Zulma e Moyna

Myrtha

Né possível que ninguém vocês não tenham se perguntado por que a Myrtha é a rainha das wilis.

Marie Agnes Gillot como Myrtha pelo Paris Ballet, foto de Icare

A história dela não é contada claramente em nenhum lugar que eu procurei. Há teorias de que ela é a rainha porque ela era rainha ou nobreza em vida. Ou será porque a morte dela foi a pior? Ou ela é mais malvada que as outras e se colocou na liderança? Será que teve votação? Ela é a mais velha?

Myrna Jamus, uma prof muuuito entendida de ballet – uma pessoa com repertório e referência vastos – me passou umas informações bem legais. Entre elas, disse que a Nora Esteves, do Teatro Municipal, contava que a Myrtha era a rainha porque a maldição começou com ela. Oloco, bixo.

Tatyana Terekhova como Myrtha pelo Kirov Ballet

E sabe aquele galho que a Myrtha carrega e meio que funciona como uma varinha/cetro? É um galho de murta (que parece a palavra morta, hein?). Em alemão, myrte, e PROVAVELMENTE daí que vem seu nome. Outra coisa: a planta murta é símbolo do amor e do casamento. Chora, bb, eles pensaram em tudo!

Ah, sim! No post anterior, quando eu falava acerca do suicídio, e de Giselle ter sido enterrada em solo “não sagrado” e desprotegida das wilis, me veio à mente se todas as wilis se mataram, por isso não encontram o descanso eterno e vagam pela noite… creio que sim, então faz mais sentido ainda Giselle ter se matado mesmo.

Neste relato, a bailarina Elana Altman, solista do San Francisco Ballet, conta que encara a amargura e ódio de Myrtha como máscara pro seu coração partido -afinal, ele é uma wili também. A diferença de Myrtha pra Giselle é que esta foi capaz de perdoar, enquanto aquela alimenta seu rancor há sabe-se lá quantos anos…

Vamos passear na floresta enquanto as wilis não vêm…

Como rainha, Myrtha dá a sentença ao TOLOS homens que cometem a BURRICE de ir pro meio da floresta de noite (sério, gente. quem faz isso?), e, pelo visto, todos ou dançam à exaustão, ou são jogados no lago pelas suas assistentes, Zulma e Moyna, porque homem nenhum presta. #boilixo

Myrtha precisa de um abraço forte e de muita terapia.

°°°

Zulma e Moyna

Mas conhecidas como “QUEM?”. Acreditem ou não, aquelas duas semi-solistas do segundo ato têm nome, shock. E têm “história” também!

História entre aspas, porque, assim como de Myrtha, não achei muita certeza:

Aqui diz que Zulma se matou pulando de um penhasco, então sua variação é cheia de saltos, e Moyna se afogou, por isso sua dança parece presa à corrente do rio. Mas essa fonte indica que Moyna era uma odalisca e Zulma era uma bayadère, e assim que as variações delas são meio temáticas. O que não exclui a possibilidade do suicidio de ambas e as variações/personagens serem uma mistura desses fatos.

Emile Cozette como Zulma e Laura Hecquet como Moyna pelo Paris Ballet (a partir dos 3:19)

Também há francesas e alemãs na parada. Ao que parece, então, o segundo ato reune wilis de vários países.

As wilis são internacionais, fia. Juntou todo mundo no túmulo de Giselle e.. peraí. Se elas são de outros lugares, por que tava todo mundo JUSTO na aldeia de Giselle?

Provável que pra saudar a nova integrante. Porque se não seria puta sorte as wilis serem do mesmo cemitério. E também puto azar nascer numa vila cheia de macho otário.

Então as wilis são itinerantes também?  Heheh

Acho chique.
“- Onde a gente vai atormentar os novinho hoje?
– Ai, menina, não sei… Bora pra Alemanha de novo.
– Ah, não, cansei de lá! Bora pra um país mais quentinho.
– Brasil?
– Partiu.”

Destrinchando Giselle V – Loucura, som e fúria

(+sarah)

Ah, a loucura de Giselle. Um dos momentos mais tocantes dos ballets de repertório. Se você não sente nem um apertozinho no coração enquanto assiste, então: 1) tá assistindo errado, assiste de novo; OU 2) você não tem coração e já está morto ou morta. (+cyndi: seria você uma wili?! Prazer, sou sua fã! Fique à vontade, ali tem biscoitos)

A situação é a seguinte: os camponeses estão todos dançando, comemorando o fim da colheita, Giselle e Albrecht juntam-se a eles e são interrompidos por Hilarion, que diz a verdade para toda a aldeia e ainda chama os nobres para confirmar. O que ele não esperava era provocar um ataque cardíaco em Giselle, acho. Espero.

Curiosamente (ou não), a cena da loucura é um dos únicos momentos do primeiro ato que não sofre alterações substanciais de uma versão para outra, mesmo com o passar dos anos. Acho que muitas de nós são capazes de reproduzir a encenação de cabeça (eu sou).

Lauren Cuthbertson como Giselle pelo Royal Ballet, foto de Johan Persson

É um momento muito forte, artisticamente falando. Nas palavras do Australian Ballet, “A ‘cena da loucura’ que se segue [à descoberta sobre Albrecht] é uma cena carregada que se baseia nas habilidades dramáticas mais poderosas de uma bailarina”. Em outras palavras, abertura rasgada e piruetas múltiplas não salvam ninguém nesse momento, e isso “pega” muita gente, que perde a mão e faz uma Giselle não de coração partido, mas afetada. A loucura em si acaba pesando mais do que a causa.

Por outro lado, a cena da loucura não é sustentada por Giselle sozinha. Vamos pegar como exemplo Albrecht e Hilarion.
Giselle morta. Corpo de baile de um lado para o outro feito barata tonta. Música “gritando”. Em tese, os dois devem estar desesperados nesse momento, sem falar da raiva um do outro. Mas quantas performances vocês já assistiram em que os bailarinos realmente transmitiram isso? Eu confesso que poucas me marcaram nesse sentido (aliás, uma vez vi um Albrecht que fez um salto na hora de tentar atingir o Hilarion com a espada e fiquei tipo WTF). Muitas Giselles já me fizeram chorar, mas Albrecht? Poucos. Hilarion? Acho que nenhum.

Eu gosto de prestar atenção, naquela pequena cena pós-morte, na interação entre Albrecht e Berthe. Já contei pra vocês que no dia 30/7 o Thiago Soares dançou Giselle aqui em São Paulo com a Mayara Magri e a Cia. Brasileira de Ballet. Teve um momento da cena em que o Albrecht/Thiago estava ajoelhado ao lado da Giselle/Mayara e a Berthe se aproximou. A expressão do Thiago quando olhou pra ela nessa hora e a reação dele depois foram absolutamente inesquecíveis.

A Alessandra Ferri (<3) disse em uma entrevista (na descrição do vídeo tem a tradução do áudio para inglês) que vê a morte de Giselle como uma morte simbólica, um “ritual” pelo qual toda menina deve passar para se tornar mulher – o que, na minha opinião, é uma filosofia bem interessante, ajuda muito a dar o tom certo à cena e também a provocar a identificação da plateia, afinal, quem de nós, independentemente do gênero, nunca teve o coração partido?

 

(+cyndi)

A cena da loucura marca a divisão do primeiro ato, alegre, doce, bucólico, e do segundo ato, sombrio e atemorizante. É tomada como uma das cenas mais difíceis para uma bailarina, que aponta quem realmente é uma prima, uma estrela.

Concordo, mas uma Giselle sozinha não faz verão.

A cena toda foi pensada em conjunto com os coreógrafos e o compositor para entregar o clima adequado. A música tem papel importantíssimo nessa cena (em todas, vai, mas nessa é mais marcante), desde a repetição do tema de Giselle e Albrecht, até o andamento da música e a pungência dos instrumentos.

Adolphe Adam, cena final do primeiro ato, ROH Orchestra

Já na parte coreográfica, a pantomima é o principal, além, claro, da interação entre os personagens principais (Giselle, Albrecht, Hilarion e Berthe) e o corpo de baile (os camponeses e os nobres). Todo mundo tem que estar afinadinho! A vergonha de um, o desespero de outra, o arrependimento deste, a aflição daquela, a perplexidade e incredulidade do resto.. tudo ao mesmo tempo, misturado, apoiado pela música, pelo cenário, pelo figurino, pelo cabelo despenteado.

Mas, agora, foi morte do coração ou suicídio? Difícil. Originalmente, era suicídio, mas foi considerado pesado pra plateia vitoriana. Mudaram para morte por coração partido pra agradar o ideal romântico da época.

Neste texto, Peter Wright é enfático ao dizer que ela se matou coma espada de Albretcht, por isso foi enterrada em solo “não sagrado” e ficou desprotegida das wilis (isso me levanta outra questão, mas fica pro próximo post). Porém, do que eu digo da personagem no segundo post da série, também acho o suicídio pesado pra ela. Mas totalmente possível. E se sua saúde fraca fosse alguma doença brava que a tirava toda a esperança de um futuro, daí Loys veio pra trazer alegria, e de repente é tudo esfarelado na frente dela… então ela só encurta o futuro impiedoso? Vai saber.

Acredito que, ao invés de ser OU uma OU outra, as mortes foram juntas, por coração e por espada.

Agora, Giselle é uma wili, está separada do seu amor para sempre e deve seguir mesmo destino das jovens enganadas antes do casamento: atormentar os homi.

 

 

Destrinchando Giselle IV – Friendzone

Pobre Giselle, os caras que gostam dela só vacilam. Pior que vacilam na boa intenção, o que não muda em nada o fato, nem ameniza a situação, mas… bem…

Assim como Albrecht errou, Hilarion também errou; afinal, foi sua ação que desencadeou a loucura toda. Mas, pra mim, é como se Hilarion fosse o culpado e Albrecht, o responsável.

Sabe, eu não gosto de novela porque muitas vezes o vilão é 100% mal e o mocinho é 100% bom, e isso é tão fake. Hilarion não é todo maldade, ele gostava de Giselle e tentou protegê-la da mentira toda, e, dois coelhos com uma cajadada, se livrar do pretendente e abrir caminho para conquistá-la. Acho que ele é mais egoísta que mau. Ciúme é uma coisa horrível! Ele queria que Giselle fosse feliz, mas que fosse feliz com ele e só com ele. Aí não é legal não, errou feio, errou rude.

Mas, assim, né, ele viu a oportunidade e se jogou de cabeça, e ele realmente não devia ter feito isso. O desespero e a raiva nunca ajudaram ninguém nesse assunto, certo? Creio que em assunto nenhum! Mas, pobrezinho, teve a esperança de Giselle ter olhos pra ele depois… a estratégia foi toda errada, olha só no que deu: com a verdade despejada na cara, no momento que ela achava ser o pico da felicidade, Giselle teve o coração espatifado e morreu (ou se matou, depende da versão que você gosta).

Pensa num arrependimento!

Isso ensina a gente a não fazer nada de cabeça quente.

Eu acho que ele não merecia morrer não </3 mas a plateia precisava de um exemplo do poder das wilis.

Kazuo Kimura como Hilarion pelo Tokyo Ballet

sente o medo!

 

(+sarah)

Oi, meninas! No vídeo de hoje vou ensinar vocês como NÃO agir quando o crush te dá um fora.
Não dá, gente. Por mais que o Albrecht seja um canalha cretino mentiroso filho de chocadeira, pra mim o grande vilão do primeiro ato, pra não dizer do ballet inteiro, é e sempre foi ele: Hilarion, também conhecido pelas companhias russas como Hans das Ilhas do Sul.

Albrecht mentiu. Fato. Isso é péssimo. Fato. MAS: qual foi a razão de ele ter mentido? Provavelmente nunca saberemos, a menos que Vernoy de Saint-Georges, Teóphile Gautier e Jean Coralli apareçam em alguma mesa branca por aí e contem pra gente. O que nós sabemos (contamos isso pra vocês lá nos primeiros posts) é que “Giselle” foi criado durante o Romantismo, o que provavelmente significa que o Albrecht, ao mentir, tinha algum propósito heroico, apesar de que, na minha opinião, se essa informação não está no libreto, não é importante para o público (sou advogada – ui, ainda não me acostumei com esse título – e por isso tenho muito a mentalidade de que se algo é importante, TEM que ser dito; “se não está no processo, não está no mundo” e coisas assim). Mas se as pessoas conseguem debater e criar teorias sobre Harry Potter 20 anos após o lançamento do primeiro livro, podemos tranquilamente debater “Giselle” – até porque o “Destrinchando Giselle” foi criado pra isso mesmo.
Mas voltando. Albrecht mentiu e isso é péssimo. MAS COM CERTEZA ELE NÃO PLANEJAVA CONTAR ISSO PRA GISELLE ENFIANDO A ESPADA NA CARA DELA, CHAMANDO TODOS OS NOBRES E SE DESMASCARANDO PRA ALDEIA INTEIRA. Tenho certeza que se recebesse a notícia com calma e com jeitinho Giselle não teria enlouquecido.

Além disso, vamos parar pra analisar o comportamento do Hilarion quando ele flagra Giselle e Albrecht juntos pela primeira vez durante o ballet. Além de puxar a faca pro duque (se o Albrecht não estivesse disfarçado com certeza o Hilarion ia ter enfrentado uma pena de morte), em algumas versões ele chega até a ser meio agressivo com a Giselle. No dia 30/7 assisti “Giselle” com a Companhia Brasileira de Ballet e Thiago Soares e Mayara Magri nos papéis principais e tive bastante essa impressão. O Hilarion até agarrou os braços dela! Sabe, quando você vai sacudir alguém? Não se faz isso com mulher nenhuma, seja ela real ou fictícia.

OU SEJA: Hilarion bonzinho? Pense duas vezes, miga.

A real é uma só: a Idade Média tava cheia de boy lixo (OLHA SÓ QUE COISA, ESTAMOS EM 2017 E NADA MUDOU).

Queria muito dizer que a “vingança” da Myrtha e das Willis no segundo ato é bem feito, mas não tenho essa capacidade. Mas também não tenho simpatia não. Hmpf.

Destrinchando Giselle III – Meu nome não é Johnny

espero que a referência do título tenha dado a entender o personagem de hoje…

(+sarah)

AHAAAA!!!! Chegamos no motivo da minha revolta!
Ele mesmo, o grande vilão que quer se passar por mocinho da história. O príncipe canalha. Vem pra cá, Albrecht! Bom, vamos lá. Albrecht é o duque da Silésia, está noivo da Princesa Bathilde e é apaixonado por Giselle.
Pausa. Rebobina. Volta pra qualquer vez que a Sarah assistiu Giselle antes daquele fatídico dia em que caiu a ficha (dica: foram muitas).

Eu nem sempre achei que o Albrecht fosse o “culpado” da história. Aliás até pouco tempo eu nem cogitava isso. É óbvio que se ele não tivesse mentido nada teria acontecido – mas aí não teríamos história. Agora SE AQUELE HILARION NÃO FOSSE TÃO RECALCADO E CIUMENTO TERIA FICADO TUDO BEM. Eu acho. Ou não, porque afinal de contas Albrecht era um nobre e Giselle apenas uma camponesa (se alguém aí assiste a novela das seis da globo e acompanhou o rolê da Domitila e do Dom Pedro entende o que eu digo).

Vamos esquecer as classes sociais por um segundo. Bora focar no amô.

Pra mim o Albrecht é aquele cara príncipe, fofo. Meu crush dos repertórios (ele e o Romeu e o Colas e o Basílio e OPA FOI MAL). Podem me julgar (aliás, mais alguém aí tem crush em personagem de repertório? Não? Ah, bom, deixa eu voltar aqui…). Eu no lugar de Giselle teria caído feito patinho na lábia dele MAS AÍ É QUE TÁ. Seria lábia? Paixonite? Amor verdadeiro?

Eu sempre acreditei que era amor. Até hoje acredito, mesmo tendo me dado conta do mentiroso que ele é. Posso citar aqui vários exemplos que ajudaram a me convencer, mas deixo vocês com três: Mikhail Baryshnikov (APELEI EU SEI DESCULPA mas a cena dele ajoelhado aos pés da Natalia Makarova “morta” mexe comigo), Roberto Bolle (recomendo a versão do Alla Scala de 2005 com ele e a Svetlana Zakharova) e Sergei Polunin (Bolshoi, 2015, também com a Zakharova – sempre salva pelos pares em Giselle, hein, Madame Zakharova? Tem que ver isso aí).

“Mas Sarah, se ele a amava tanto por que não falar a verdade logo de uma vez? Por que não enfrentar a corte, terminar com a Bathilde e fazer da Giselle a princesa?”

Não ia pegar bem. Os camponeses provavelmente iam adorar, é claro, quem não amava Giselle?, mas a nobreza? As pessoas importantes da época? Outros reinos? Pfff (ver comentário ali em cima sobre a novela das seis). Por que mentir?

Eu, Sarah, particularmente acho que foi algo do tipo, “vou me aproximar dela e ver se sou correspondido, depois vejo o que faço”.

E você, Cyndi?

*Cyndi entra ao som de aplausos*

(+cyndi)

Acho que é de opinião geral que Albrecht não vale nada.

Como já aprendemos, Albrecht, duque de Silésia, era conhecido nas ruas da vila como Loys, camponês. Ele se “disfarçou” de morador para ter mais contato com sua crush, Giselle. O grande problema dessa história, maior do que mentir seu nome e sua riqueza, é que ele já era noivo da princesa Bathilde.

Antes de sair julgando, paus e pedras nas mãos, vamos considerar um pouquinho da história de fundo disso. Eu também era team #albrechtotário, mas hoje consigo enxergar o lado dele.

Carlos Acosta como Albrecht em Giselle pelo Royal Ballet, foto de Bill Cooper

Antigamente, os filhos da nobreza eram como moeda de troca por favores políticos, proteção, alianças etc. Muita união sem amor era feita, e acredito que esse seja o caso de Albrecht e Bathilde. Imagine não ter essa escolha? A de quem você vai passar o resto da vida… Deusolivre! Casos extraconjugais e amantes eram coisa normal na high society – não quero dizer, com isso, que seja correto.

Creio que Albrecht se apaixonou de verdade por Giselle. Não sabemos como eles se conheceram, mas eu consigo imaginar todo um cenário. Será que ele a viu de relance durante um passeio pela vila, e se encantou? Será que eles conversaram? Todo mundo gostava de Giselle, ela era um amorzinho. Muito fácil se apaixonar por ela. Giselle, por outro lado, era mais reservada nesse sentido. Imagino os dois interagindo timidamente, ganhando a confiança dela aos poucos, até, finalmente, as cenas de namorico que a gente pode ver no palco. Em sua posição social, ele sabia que não seria possível um relacionamento (e o compromisso também impedia, né), mas não julgo, gente, se ele teve essa vontade de viver o amor, de se sentir amado e – por que não? – se sentir livre por alguns momentos. Pode parecer que ele só queria um caso, ou uma diversão… mas seria bem mais fácil encontrar outras mulheres dispostas a isso sem precisar de toooodo o esforço pra conseguir Giselle, né não?

Jane Austen disse um vez, “somos todos tolos, quando apaixonados”… só que você foi tolo demais, hein, Albrecht?! Te entendo, mas não concordo com suas ações. E, assim como Giselle, te perdoo.

Destrinchando Giselle II – Giselle, a flor do campo

A partir de hoje, vamos falar das personagens, a começar pela personagem-título. O ballet todo gira em volta de Giselle. Mas quem é essa moça?

Uma camponesa alemã, filha de uma viúva (ao que parece), de saúde delicada e coração fraco. Ama dançar. Extremamente adorável.

Nesta entrevista, a Alina Cojocaru ❤ faz uma análise tão bonita da personagem. Coisa de quem é muito sensível e coisa de bailarina experiente também. Ela diz que pensa em Giselle como uma moça muito feliz. Ela tem a saúde fraca, provavelmente perdeu o pai… com certeza ela passou por momentos muito difíceis e, mesmo assim, ela é agradável e gentil com todo mundo. Todos gostam dela! Os camponeses a coroam como rainha da colheita, mesmo ela sendo fraca pra ajudar; seus amigos se reúnem em sua casa; todos param para vê-la dançar. É uma querida! Com certeza, uma pessoa com uma energia muito boa. Isso vai além de pensar nela como uma moça inocente e apaixonada.

Alina Cojocaru como Giselle pelo Paris Ballet, foto de Icare

WHY DO BAD THINGS HAPPEN TO GOOD PEOPLE

Giselle não é uma boba; não gosto quando a bailarina a faz tímida demais. Minha imagem dela é mais de uma otimista inveterada do que mocinha de interiô. Como Alina disse, como ela pode ser tão feliz mesmo tendo passado por tanto perrengue? Leveza. Só que… bem… tudo tem um limite. Ter o coração estraçalhado foi o limite dela. Ser desenganada, estando tão apaixonada como ela estava, é avassalador. Enlouquecedor!

E, apesar dor pesares, ela perdoa quem a feriu. Protege da morte quem lhe tirou o chão. Mesmo ela mesma tendo morrido… LEVEZA. A vida é muito curta pra odiar, guardar rancor. Vingança? Credo. “Eu que não”, diria Giselle.

Courtney Richardson como Giselle e Fabien Voranger como Albrecht pelo SemperOper Ballett

(+sarah)

Giselle, para mim, é uma das personagens mais desafiadoras do ballet clássico, pelo menos no aspecto cênico. Eu a vejo quase como uma criança, totalmente inocente, pura, doce e alegre, e da mesma forma que nem todas as bailarinas têm (ou são capazes de transmitir) a malícia de Odile, por exemplo (*cof cof* Sarah Lamb *cof cof*), nem todas as bailarinas transparecem essa leveza e pureza de espírito tão características de Giselle. Da mesma forma que eu não acreditaria em uma Odile frágil, desconfio de Giselles muito precisas tecnicamente ou donas de si. Notem que, diferente da Lise, de “La Fille Mal Gardée”, a Giselle (aparentemente) não bola planos pra “escapar” da mãe e ficar com o Loys/Albrecht. Ela resiste um pouco, mas depois entra em casa e fica por lá.

A melhor personagem da Alina Cojocaru, na minha opinião (e na dos críticos também) era, até um tempo atrás (confesso que desde que ela foi pro English National Ballet não acompanho sua carreira tão de perto), Aurora. Mas ela é a própria personificação de Giselle, né? Fofinha, delicada, mas na medida certa, sem ser tonta.

Sabem quem eu também acho uma Giselle incrível? Alessandra Ferri. Espia só:

Alessandra Ferri como Giselle e Massimo Murru como Albrecht pelo Alla Scala

Isso, meus amigos, é que é arte.

Destrinchando Giselle I – Senta que lá vem história

(+sarah)

Esse primeiro post vai ser mais teórico (porque bailarina clássica tem que estudar teoria, SIM), contando a história do ballet, fofocas curiosidades, etc. Então vamos lá.

“Giselle” é o grande símbolo do ballet no Romantismo (exemplos de obras dessa época: Iracema, Noite na Taverna, O Guarani, Canção do Exílio, O Navio Negreiro, Memórias de Um Sargento de Milícias… Acho que já deu pra se situar, né?). O libreto foi escrito por Vernoy de Saint-Georges, Théophile Gautier e Jean Coralli, a coreografia é de Jean Coralli e Jules Perrot e a música é de Adolphe Adam, que também compôs “O Corsário” e outro ballet chamado “La Filleule des Fées”, além de diversas óperas cômicas.

“Giselle” foi criado em 1840 e sua estreia ocorreu em 28 de junho (MEU ANIVERSÁRIO! ❤ com um século e meio de diferença, mais ou menos) de 1841, na Ópera de Paris.

A bailarina responsável pela interpretação da personagem principal foi Carlotta Grisi (isso mesmo, a do Pas de Quatre e da sapatilha de ponta), para quem Gautier criou o papel. Lucien Petipa (não, não era o coreógrafo – aquele é Marius, irmão dele) interpretou Albrecht e o próprio Jean Coralli ficou responsável por dar vida a Hilarion.

O ballet se passa na Alemanha (sempre achei que fosse na França, mas minhas fontes apontaram Alemanha, então vamos nessa) e conta a história de uma jovem camponesa, Giselle, por quem um nobre, o Duque Albrecht (sempre achei que fosse Conde, mas minhas fontes apontaram Duque), da Silésia, se apaixona. Para conquistar sua amada, ele finge ser um camponês chamado Loys, e seu sentimento é correspondido por Giselle. Contudo, o caçador Hilarion, que também é apaixonado por Giselle, desconfia de Loys e está sempre à espreita tentando desmascará-lo.

O ballet começa com o dia amanhecendo e os camponeses indo para a colheita; é vindima, época de uvas. Hilarion se aproxima da casa de Giselle e, como sempre, desconfia de “Loys”, que “mora” na casa em frente. Depois que Hilarion sai de cena (ou, em algumas versões, se esconde), Albrecht/Loys aparece, acompanhado de seu criado, Wilfrid. Albrecht conta que está apaixonado por Giselle e Wilfrid tenta convencê-lo a abandonar tudo e voltar para a corte, sem sucesso. Quando é dispensado, Wilfrid se despede com uma reverência, o que (nas versões em que ele está escondido) surpreende Hilarion e levanta mais suspeitas.

Albrecht/Loys bate à porta da casa de Giselle e ela aparece. Eles dançam juntos, mas são interrompidos por Hilarion, que se declara para Giselle e é rejeitado. Ele intimida Albrecht para um duelo e o duque instantaneamente gesticula para puxar a espada da cintura, mas lembra que está vestido como camponês e não carrega sua espada consigo.
Hilarion vai embora. Outros camponeses aparecem e Giselle e suas amigas dançam para comemorar o final da colheita.

Berthe, mãe de Giselle (aliás, por que é que, tirando Julieta e Aurora, as mocinhas do ballet NUNCA tem o pai E a mãe? #mistério), sai de casa atrás da filha e, ao descobrir que ela estava dançando, a repreende, lembrando de seu coração fraco. Berthe aproveita os camponeses reunidos e conta a história das Willis, que são noi­vas mor­tas na vés­pera do casa­mento, cuja alma não consegue des­can­sar nas sepul­tu­ras. À meia-noite, elas levan­tam de seus túmulos e se encon­tram. Qualquer rapaz que cruze o cami­nho delas é for­çado a dan­çar até a morte. Elas estão ves­ti­das de noiva, arranjo de flo­res na cabeça e anel no dedo. Depois dessa cena, Giselle tem que voltar para casa e os camponeses vão embora. Nesse momento, Wilfrid aparece, alertando Albrecht sobre a chegada dos nobres, e o duque vai embora. Hilarion aproveita esse momento para entrar na “casa” do rival.

Os nobres, acompanhados pelo Príncipe de Courtland e sua filha Bathilde, chegam à vila, e Berthe e Giselle os recebem. Bathilde e Giselle conversam, e a camponesa conta que está apaixonada e prestes a se casar, e é presenteada pela princesa com um colar (em algumas versões é uma espécie de colar de contas feito com pedras preciosas, em outras é uma corrente simples com um pingente). Mais alguns camponeses dançam (nesse momento temos o Pas de Paysant) e os nobres se hospedam na casa de Giselle e em outras casas próximas. O Príncipe de Courtland deixa pendurado na porta da casa de Giselle uma espécie de corneta, para chamar os outros nobres quando acordar.

Hilarion sai da casa de “Loys” carregando a espada que encontrou, e se depara com a corneta pendurada do lado de fora da casa de Giselle. Alguns camponeses se aproximam e ele foge.

Giselle é chamada por seus amigos (em algumas versões, esse é o momento em que ela é coroada “rainha” da vindima) e Albrecht/Loys está por perto. Mais uma vez o casal dança, acompanhado de outros camponeses, até que Hilarion aparece para desmascarar o Duque. Ele mostra a todos a espada de Albrecht, que nega tudo, então Hilarion chama os nobres com a corneta. Sem ter para onde fugir, Albrecht é confrontado por Bathilde sobre seus trajes de camponês, e responde que tudo não passou de uma brincadeira.

Desesperada, Giselle interrompe a conversa dos dois e diz para a Princesa que Loys é seu noivo, e leva um susto quando Bathilde diz que também é noiva de Loys, mas que ele, na verdade, é o Duque Albrecht. A camponesa arranca o colar que ganhou de Bathilde e o joga no chão, tenta cometer suicídio com a espada de Albrecht, é assombrada pelas Willis e se lembra de seus momentos com Albrecht, até que seu coração não aguenta mais e ela morre nos braços do Duque.

O segundo ato se passa na floresta, à noite. O corpo de Giselle já foi sepultado e Hilarion e Albrecht vão ao local para demonstrar seu amor e seu remorso. Giselle aparece para Albrecht e eles dançam juntos. Hilarion encontra as Willis e é forçado a dançar até morrer de exaustão; várias vezes ele implora piedade de Myrtha, Rainha das Willis, mas ela não cede. Albrecht aparece logo depois e recebe a mesma pena de Hilarion, mas Giselle o protege usando a cruz de seu túmulo e tomando o lugar do Duque na dança em alguns momentos, o que faz com que ele sobreviva até o nascer do sol, quando as Willis desaparecem.

C’est fini. Lágrimas. Aplausos. Gritos. Flores. Mais lágrimas.

Algumas curiosidades:

1- Apesar de ter sido responsável por grande parte da coreografia, como os solos de Giselle, a cena da loucura e a dança de Hilarion com as Willis, Jules Perrot não recebeu os devidos créditos pela coreografia. Como colaborador, ele teria direitos autorais sobre a peça. Acredita-se que ele tenha aceitado isso porque tinha esperança de ser promovido dentro do teatro onde ocorreu a estreia, o Paris Opera. Somente já no século XX, com a intervenção de Serge Lifar, é que a Ópera de Paris passou a dar os créditos a Jules Perrot.

2- Carlotta Grisi, a Giselle da estreia, também nasceu em 28 de junho, mas em 1819, exatos 22 anos antes da estreia do ballet. Aliás, Giselle foi seu papel mais conhecido. Grisi viveu bastante para a época (eu acho), quase 80 anos, até 20 de maio de 1899. Grisi dançou Giselle aqui no Brasil em 23 de junho de 1949, e dois dias depois, durante aniversário da coroação de D. Pedro II.

3- Quando Giselle foi montado na Rússia pela primeira vez, o papel principal coube a Fanny Elssler, que foi convidada para dançar o Pas de Quatre com Carlotta Grisi, Fanny Cerrito e Marie Taglioni, mas não aceitou e foi substituída por Lucile Grahn.

4- Auguste Bournonville estava em Paris durante a montagem de Giselle e passou alguns dias com Jules Perrot e Carlotta Grisi; acredita-se que ele tenha auxiliado Perrot na montagem do ballet.

5- O Pas de Paysant foi inserido no último minuto, para Nathalie Fitzjames, em favor a uma influente patrocinadora, Mademoiselle Fitzjames, tendo sido dançado com Auguste Mabille.

6- Giselle saiu do repertório da Ópera de Paris em 1867, e só retornou em 1910 com o Ballets Russes, graças a Sergei Diaghilev. Nessa ocasião, Tamara Karsavina e Vaslav Nijinski interpretaram os papéis principais.

7- A coreografia que conhecemos hoje tem como base a montagem de Petipa (o Marius) de 1887. Como todos os ballets, essa coreografia sofreu alterações ao longo do tempo, mas a versão mais próxima desse original de Petipa é do Mariinsky Ballet.

8- Na versão do Bolshoi (e acredito que nas demais companhias russas também), Hilarion recebe o nome de Hans das Ilhas do Sul. Deve ser mais fácil para a pronúncia dos russos.

9- Na coreografia original, Giselle comete suicídio com a espada de Albrecht, mas a cena foi considerada muito chocante na época, causando rejeição do público, então foi feita uma alteração no libreto e ela passou a morrer do coração. Com essa alteração, o ballet foi um sucesso absoluto. (“Sarah, todo mundo sabe disso”. Ah, vai que tem alguém ouvindo falar do assunto pela primeira vez?)

10- As Willis foram amplamente inspiradas em um trecho da obra “De l’Allemagne”, de Heinrich Heine, com o qual Saint-Georges se encantou e imediatamente quis criar um ballet a partir do que tinha lido.

Então é isso, gente! Esperamos que vocês tenham gostado, amanhã tem mais 😉